PenseLivre On Line

Como dizia apropriadamente Samuel Wainer: A PENA É LIVRE, MAS O PAPEL TEM DONO.
Os blogs permitem que, por algum momento, possamos ter a pena livre e, ao mesmo tempo, ter a propriedade do papel.
Neste blog torno públicas algumas reflexões pessoais, textos e publicações pinçadas da web e que me fizeram pensar e repensar melhor a realidade.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Petrobras e Petrosal - Um dia para a história

Discurso de Luis Inácio Lula da Silva no lançamento do pré-sal. Sem comentários!

Hoje é um dia histórico.

O governo está enviando ao Congresso Nacional sua proposta do marco regulatório para a exploração de petróleo e gás no chamado pré-sal.

Estou seguro de que, nos próximos meses, os deputados e senadores, recolhendo também as contribuições de governadores e prefeitos, aperfeiçoarão as propostas do governo, trabalhando com responsabilidade, espírito público, compromisso com o país e, sobretudo, muita visão de futuro.

Estou seguro também de que o povo brasileiro entrará de corpo e alma nesse debate tão importante para o destino do Brasil e para o futuro dos nossos filhos.

Porque esse não é um assunto apenas para os iniciados e especialistas. Nem é tampouco um tema que deva ficar restrito somente ao parlamento. Ao contrário, ele interessa a todos e depende de todos.

Por isso mesmo, quero convocar cada brasileiro e cada brasileira a participar desse grande debate. Trabalhadores, donas de casa, lavradores, empresários, intelectuais, cientistas, estudantes, servidores públicos, todos podem e devem contribuir para que tomemos as melhores decisões.

Minhas amigas e meus amigos,

O chamado pré-sal contém jazidas gigantescas de petróleo e gás, situadas entre cinco e sete mil metros abaixo do nível do mar, sob uma camada de sal que, em certas áreas, alcança mais de 2 mil metros de espessura.

Não se pode ainda dizer, com certeza, quantos bilhões de barris o pré-sal acrescentará às reservas brasileiras. Mas já se pode dizer, com toda segurança, que ele colocará o Brasil entre os países com maiores reservas de petróleo do mundo.

Trata-se de uma das maiores descobertas de petróleo de todos os tempos. E em condições extremamente importantes: as reservas encontram-se num país de grandes dimensões, de grande população e de abundantes recursos naturais. Um país que conta com um regime político estável e instituições democráticas em pleno funcionamento. Um país pacífico que faz questão de viver em paz com seus vizinhos. Um país que possui uma economia sofisticada, com um parque industrial diversificado, uma agropecuária de ponta e um setor de serviços moderno. Um país que, tendo dado passos importantes na superação das desigualdades sociais, encontrou seu caminho e está maduro para dar um salto no desenvolvimento.

Como já disse em outra oportunidade, o pré-sal é uma dádiva de Deus. Sua riqueza, bem explorada e bem administrada, pode impulsionar grandes transformações no Brasil, consolidando a mudança de patamar de nossa economia e a melhoria das condições de vida de nosso povo.

Mas o pré-sal também apresenta perigos e desafios. Se não tomarmos as decisões acertadas, aquilo que é um bilhete premiado pode transformar-se em fonte de enormes problemas. países pobres que descobriram muito petróleo, mas não resolveram bem essa questão, continuaram pobres.

Outros caíram na tentação do dinheiro fácil e rápido. Passaram a exportar a toque de caixa todo o óleo que podiam e foram inundados por moedas estrangeiras. Resultado: quebraram suas indústrias e desorganizaram suas economias. E, assim, o que era uma dádiva transformou-se numa verdadeira maldição.

Para evitar esse risco, desde o primeiro instante, determinei à comissão de ministros que preparou o marco regulatório do pré-sal que trabalhasse em cima de três diretrizes básicas.

Primeira: o petróleo e o gás pertencem ao povo e ao Estado, ou seja, a todo o povo brasileiro. E o modelo de exploração a ser adotado, num quadro de baixo risco exploratório e de grandes quantidades de petróleo, tem de assegurar que a maior parte da renda gerada permaneça nas mãos do povo brasileiro.

A segunda diretriz é de que o Brasil não quer e não vai se transformar num mero exportador de óleo cru. Ao contrário, vamos agregar valor ao petróleo aqui dentro, exportando derivados, como gasolina, óleo diesel e produtos petroquímicos, que valem muito mais. Vamos gerar empregos brasileiros e construir uma poderosa indústria fornecedora dos equipamentos e dos serviços necessários à exploração do pré-sal.

A terceira diretriz: não vamos nos deslumbrar e sair por aí, como novos ricos, torrando dinheiro em bobagens. O pré-sal é um passaporte para o futuro. Sua principal destinação deve ser a educação das novas gerações, a cultura, o meio ambiente, o combate à pobreza e uma aposta no conhecimento científico e tecnológico, por meio da inovação. Vamos investir seus recursos naquilo que temos de mais precioso e promissor: nossos filhos, nossos netos, nosso futuro.

Ao examinar os projetos de lei que estamos enviando hoje ao Congresso, depois de tanto trabalho e estudo, vejo com satisfação que eles estão em perfeita sintonia com essas diretrizes.

Minhas amigas e meus amigos,

Uma mudança importante no marco regulatório será a adoção do modelo de partilha de produção no pré-sal e em outras áreas de potencial e características semelhantes. É uma mudança absolutamente necessária e justificada.

Estamos vivendo hoje um cenário totalmente diferente daquele que existia em 1997, quando foi aprovada a Lei 9.478, que acabou com o monopólio da Petrobras na exploração do petróleo e instituiu o modelo de concessão.

Naquela época, o mundo vivia um contexto em que os adoradores do mercado estavam em alta e tudo que se referisse à presença do Estado na economia estava em baixa. Vocês devem se lembrar como esse estado de espírito afetou o setor do petróleo no Brasil. Altas personalidades naqueles anos chegaram a dizer que a Petrobras era um dinossauro – mais precisamente, o último dinossauro a ser desmantelado no país. E, se não fosse a forte reação da sociedade, teriam até trocado o nome da empresa. Em vez de Petrobras, com a marca do Brasil no nome, a companhia passaria a ser a Petrobrax – sabe-se lá o que esse xis queria dizer nos planos de alguns exterminadores do futuro.

Foram tempos de pensamento subalterno. O país tinha deixado de acreditar em si mesmo. Na economia, campeava o desalento. O Brasil não conseguia crescer, sofria com altas taxas de juros, de desemprego, e juros estratosféricos, apresentava dívida externa elevadíssima e praticamente não tinha reservas internacionais. Volta e meia quebrava, sendo obrigado a pedir ao FMI ajuda, que chegava sempre acompanhada de um monte de imposições.

Além disso, não produzíamos o petróleo necessário para nosso consumo. Ferida, desestimulada e desorientada, a Petrobras vivia um momento muito difícil. Tinha dificuldades de captação externa e não contava com recursos próprios para bancar os investimentos. Nessa época, é bom lembrar – e a Dilma já falou – o preço do barril do petróleo estava em torno de US$ 19.

Hoje, nós vivemos um quadro é inteiramente diferente. Em primeiro lugar, os países e os povos descobriram na recente crise financeira internacional que, sem regulação e fiscalização do Estado, o deus-mercado é capaz de afundar o mundo num abrir e fechar de olhos. O papel do Estado, como regulador e fiscalizador, voltou, portanto, a ser muito valorizado.

A economia do Brasil vive também um novo momento. De 2003 a 2008, crescemos em média, 4,1% ao ano. Nos últimos dois anos, nosso crescimento foi superior a 5%. Nesse período, o país gerou cerca de onze milhões de empregos com carteira assinada. O desemprego caiu de 11,7% para 8%, em 2008. Hoje, as taxas de juros atuais são as menores de muitas décadas em nosso país.

Não só pagamos a dívida externa pública, como acumulamos reservas superiores a US$ 215 bilhões. E mais: reduzimos de modo consistente a miséria e as desigualdades sociais. Mais de 30 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza e 2 milhões ingressaram... e 20 milhões ingressaram na nova classe média, fortalecendo o mercado interno e dando vigoroso impulso à nossa economia.

O fato é que hoje temos uma economia organizada, pujante e voltada para o crescimento. Uma economia que foi testada na mais grave crise internacional desde 1929 e saiu-se muito bem na prova. Não só não quebramos, como fomos um dos últimos países a entrar na crise e estamos sendo um dos primeiros a sair dela. Antes, éramos alvo de chacotas e de imposições. Hoje, nossa voz, a voz do Brasil, é ouvida lá fora com muita atenção e com muito respeito.

Meus queridos companheiros e companheiras,

Desde o primeiro instante, meu governo deu toda força à Petrobras. Passamos a cuidar com muito carinho do nosso querido dinossauro. Os recursos da empresa destinados à pesquisa e ao desenvolvimento deram um salto de US$ 201 milhões, em 2003, para R$ 960 milhões, em 2008.

A companhia voltou a investir, aumentou a produção, abriu concursos para contratação de funcionários, encomendou plataformas, modernizou e ampliou refinarias, além de construir uma grande infra-estrutura de gás natural e entrar também na era de biocombustíveis.
Deixamos claro que nossa política era fortalecer, e não debilitar, a Petrobras. E a companhia – estimulada, recuperada e bem comandada – reagiu de forma impressionante.

Resultado: a Petrobras vive hoje um momento singular. É o orgulho do país. É a maior empresa do Brasil. É a quarta maior companhia do mundo ocidental. Entre as grandes petroleiras mundiais, é a segunda em valor de mercado. É um exemplo em tecnologia de ponta. Descobriu as reservas do pré-sal, um feito extraordinário, que encheu de admiração o mundo e de muito orgulho os brasileiros. É uma empresa com crédito e autoridade internacionais. Tanto que, nos últimos meses, levantou cerca de US$ 31 bilhões em empréstimos. Seus investimentos previstos até 2013 somam US$ 174 bilhões.

E ainda para ajudar, para completar, o preço do barril de petróleo oscila hoje em torno de US$ 65, mais do triplo do que em 1997.

Em suma, os tempos e o ambiente no mundo são outros. A situação da economia brasileira é outra. O Brasil e o prestígio do Brasil são outros. A Petrobras é outra. E outra também é a situação do mercado do petróleo.

Minhas amigas e meus amigos,

Também não há termos de comparação entre as áreas que vinham sendo exploradas até agora e as áreas do pré-sal.

No pré-sal, os riscos exploratórios são baixíssimos. A taxa de sucesso dos poços operados pela Petrobras na área é de 87%, sendo que nos blocos situados na Bacia de Santos ela é de 100%. Foram 13 poços perfurados. E nos 13 comprovou-se a existência de grandes quantidades de óleo e gás, com excelentes perspectivas de viabilidade econômica.

Nessas circunstâncias, seria um grave erro manter na área do pré-sal, de baixíssimo risco e grande rentabilidade, o modelo de concessões, apropriado apenas para blocos de grande risco exploratório e baixa rentabilidade.

No modelo de concessões, a União, proprietária do subsolo, permite que as companhias privadas procurem petróleo, mediante o pagamento de uma taxa chamada bônus de assinatura. Se elas encontrarem óleo ou gás, podem extraí-lo e comercializá-lo como quiserem. São donas do petróleo arrancado das entranhas da terra, porque, a partir da boca do poço, a União perde os direitos de propriedade, recebendo apenas uma parcela pequena da renda do petróleo, na forma de royalties e participações especiais.

Já no modelo de partilha, que prevalece em todo o mundo em áreas de baixo risco exploratório e grande rentabilidade, a União continuará dona da maior parte do petróleo e do gás mesmo depois de sua extração. Nesse modelo, o Estado não transfere toda a propriedade do óleo para grupos privados, mas fecha contratos para a exploração e a produção em determinada área – diretamente com a Petrobras ou, mediante licitação, no caso de outras companhias.

No modelo de partilha, as empresas são remuneradas com uma parcela do óleo extraído, suficiente para cobrir seus custos e investimentos e ainda proporcionar uma rentabilidade adequada ao risco do projeto. Já o Estado fica com a maior parte dos lucros da exploração e produção de petróleo, parte esta bem superior ao que recebe hoje no regime de concessão. A regra do modelo de partilha é clara: nas licitações, vence a empresa que oferecer a maior parcela do lucro da operação para o Estado e para o povo brasileiro.

Amigas e amigos,

Como no modelo de partilha a maior parte do petróleo, mesmo depois de extraído, continuará a pertencer ao Estado, ela controlará o processo de produção. Assim, ela poderá definir claramente o ritmo de extração, calibrando-o de acordo com os interesses nacionais, sem se subordinar às exigências do mercado. Dessa maneira, ficará mais fácil para o Brasil contornar os riscos inerentes à produção excessiva, que poderia inundar o país de dinheiro estrangeiro, desorganizando nossa economia – aquilo que os especialistas chamam de doença holandesa.

Além disso, poderemos produzir petróleo nas condições que mais convêm ao país. E desse modo poderemos aproveitar a riqueza do petróleo, que Deus nos deu, para produzir mais riqueza ainda com o nosso trabalho.

Dessa forma, consolidaremos uma poderosa e sofisticada indústria petrolífera, promoveremos a expansão da nossa indústria naval e converteremos o Brasil num dos maiores pólos mundiais da indústria petroquímica do mundo.

Trabalhando com essa perspectiva, encomendaremos – e produziremos aqui dentro – milhares e milhares de equipamentos, gerando emprego, salário e renda para milhões de brasileiros.

Minhas amigas e meus amigos,

Para gerir os contratos de partilha e os contratos de comercialização de petróleo e gás, zelando pelos interesses do Estado e do povo brasileiro, estamos criando uma nova empresa estatal na área do petróleo, a Petrosal.

Ela não concorrerá com a Petrobras, já que não participará da prospecção ou da exploração de petróleo e gás. Sua missão é inteiramente diferente. A nova estatal será, isso sim, a representante dos interesses do Estado brasileiro, o olho atento do povo brasileiro, acompanhando e fiscalizando a execução dos contratos firmados na área do pré-sal.

Será uma empresa enxuta, com corpo técnico altamente qualificado, formado por profissionais com experiência comprovada. Em vários países que adotaram o modelo de partilha, empresas com esse caráter revelaram-se imprescindíveis para defender os interesses públicos e nacionais nas negociações e na gestão de contratos e processos complexos e sofisticados como os que caracterizam a indústria petrolífera.
Minhas amigas e meus amigos,

Se vocês estão cansados, imaginem eu. Outra novidade importante é a criação do Fundo Social. Ele será responsável pela administração da renda do petróleo e pela sua aplicação em investimentos seguros e de boa rentabilidade, tanto no Brasil como no exterior.

De um lado, o novo fundo será uma mega-poupança, um passaporte para o futuro, que preservará e incrementará a renda do petróleo por muitas e muitas décadas. Os rendimentos do fundo serão canalizados, prioritariamente, para a educação, a cultura, o meio ambiente, a erradicação da pobreza e a inovação tecnológica. Vamos aproveitá-los para pagar a imensa dívida que o país tem com a educação e para permitir que a aplicação do conhecimento científico seja, na verdade, a nossa maior garantia do nosso futuro.

De outro lado, o novo fundo funcionará, também, como um dique contra a entrada desordenada de dinheiro externo, evitando seus efeitos nocivos e garantindo que nossa economia siga saudável, forte e baseada no trabalho e no talento dos milhões e milhões de brasileiros.

Assim, a renda gerada pela produção do pré-sal será administrada de forma planejada e inteligente. E seu ingresso na economia nacional será dosado de modo a fortalecê-la e a impulsioná-la, jamais a desorganizá-la.
Minhas amigas e meus amigos,

Não poderia deixar de prestar aqui uma sincera homenagem à Petrobras, a sua diretoria e a todo o seu corpo de funcionários.

A descoberta do pré-sal, que coloca o Brasil num novo patamar no cenário mundial, não foi fruto do acaso ou de um golpe de sorte. Ao contrário, ela só foi possível graças ao talento, à competência e à determinação da Petrobras. E também, é claro, graças ao revigoramento da empresa nos últimos anos, à recuperação da sua autoestima e aos investimentos crescentes em pesquisa e prospecção.

Poucas empresas no mundo têm hoje a experiência da Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas e ultraprofundas. E nenhuma empresa petrolífera conhece e é capaz de obter resultados tão expressivos em nossa plataforma submarina como ela. Trata-se de um ativo, de um patrimônio de enorme valor, que deve ser bem e de forma extraordinária aproveitado.

Por isso mesmo, a Petrobras terá um status especial no marco regulatório do pré-sal. Será a única empresa operadora nessa província. Outras empresas poderão ter participação, inclusive majoritária, nos consórcios que explorarão os blocos contratados. Mas a operação – vale dizer, a exploração, o desenvolvimento, a produção e a desativação das instalações – estará sempre a cargo da nossa querida e orgulhos Petrobras.

Além disso, as reservas do pré-sal, que pertencem ao Estado e ao povo brasileiro, oferecem uma excelente oportunidade para que a União fortaleça a Petrobras para enfrentar os novos desafios. Nesse sentido, estamos enviando projeto de lei ao Congresso Nacional autorizando a União a promover aumento de capital da companhia. O valor total do aumento de capital será aquilo que a ministra Dilma já falou, de até cinco bilhões de barris equivalentes de petróleo, obviamente, relativos às jazidas contíguas às áreas que a empresa já detém no pré-sal.

Nos termos da lei, os acionistas minoritários que desejarem participar dessa chamada de capital poderão adquirir ações da companhia, o que contribuirá para reforçar economicamente nossa maior empresa nesse momento decisivo.

Se os acionistas minoritários não exercerem integralmente seus direitos de opção, a capitalização promovida pela União implicará aumento da participação do povo brasileiro no capital total da Petrobras.

Minhas amigas e meus amigos,

Nesse momento em que o Brasil discute o melhor caminho para se tornar um grande produtor mundial de petróleo, quero render minhas homenagens a todos os brasileiros que lutaram para que este sonho se transformasse em realidade.

Em primeiro lugar, homenageio os que acreditaram quando era mais fácil descrer. E não deram ouvidos às aves de mau agouro que, durante décadas, apregoaram aos quatro ventos que o Brasil não tinha petróleo. Foram, por isso, chamados de fanáticos e maníacos. Ainda bem que houve fanáticos que nos ensinaram a duvidar dos preconceitos e a ter fé em nossas próprias forças.

Rendo minha homenagem também aos que se insurgiram contra a ladainha que proclamava que, mesmo que o Brasil tivesse petróleo, não teria competência para explorá-lo. E que deveria deixar essa tarefa para o capital estrangeiro. Muitos foram tachados de lunáticos, prisioneiros de uma idéia fixa, como o grande e saudoso Monteiro Lobato, porque teimaram em lutar para que o Brasil explorasse suas riquezas. Benditos lunáticos que ensinaram o país a enxergar longe, em tempos de escuridão, e iluminaram os caminhos dos que vieram depois.

Rendo minha homenagem ainda aos que saíram às ruas em todo o país na campanha do “O Petróleo é nosso”, levando o presidente Getúlio Vargas a instituir o monopólio estatal do petróleo e a criar a Petrobras. Foi uma batalha travada em condições duríssimas. Basta ler os jornais da época, alguns em circulação até hoje, que ridicularizavam a campanha nacionalista. E eu digo: bendito nacionalismo, que permitiu que as riquezas da nação permanecessem em nossas mãos.

Rendo homenagem muito especial, por fim, a todos os que defenderam a Petrobras quando ela foi atacada ao longo de sua história – e ainda hoje – e aos funcionários e petroleiros que se mantiveram de pé quando a empresa passou a ser tratada como uma herança maldita do período jurássico. Benditos amigos e companheiros do dinossauro, que sobreviveu à extinção, deu a volta por cima, mostrou o seu valor. E descobriu o pré-sal – patrimônio da União, riqueza do Brasil e passaporte para o nosso futuro.

Olho para trás e vejo que há algo em comum em todos esses momentos, algo que unifica e dá sentido a essa caminhada, algo que nos trouxe até aqui e ao dia de hoje: é, sinceramente, a capacidade do povo brasileiro de acreditar em si mesmo e no nosso país. Foi em meio à descrença de tantos que querem falar em seu nome... O povo – principalmente ao povo – devemos esse momento atual.

É como se houvesse uma mão invisível – não a do mercado, da qual já falaram tanto, mas outra, bem mais sábia e permanente, a mão do povo – tecendo nosso destino e construindo nosso futuro. Não creio que seja uma coincidência o fato de a Petrobras ter descoberto as grandes reservas do pré-sal justamente num momento da vida política nacional em que o povo também descobriu em si mesmo grandes reservas de energia e de esperança. Num momento em que o país, deixando para trás o complexo de inferioridade que lhe inculcaram durante séculos, aprendeu como é bom andar de cabeça erguida e olhar com confiança para o futuro.

Muito obrigado, companheiros."


quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Produtividade no setor público supera a do setor privado

Estou tão acostumado a ler e ouvir que o setor público não funciona, é cabide de empregos, é um elefante branco e é ineficiente, que estudos como este divulgado pelo IPEA me deixa com pulgas atrás das orelhas: a quem interessa difamar sistematicamente a administração pública? Uma resposta imediata me vem à mente: aos militantes da privataria.

Afinal de contas quem salvou, e continua salvando, as administrações privadas que levaram o sistema financeiro neoliberal capitalista à falência foi e está sendo exatamente a administração pública.

Neste viés é muito esclarecedora a divulgação do estudo do IPEA. Bebi na fonte: aqui

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A administração pública é mais produtiva do que o setor privado. Essa foi uma das conclusões a que chegou o estudo Produtividade na Administração Pública Brasileira: Trajetória Recente, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O Ipea avaliou a evolução da diferença de produtividade entre esses dois setores entre 1995 e 2006.

A notícia é da Carta Maior, 26-08-2009.

“Em todos os anos pesquisados, a produtividade da administração pública foi maior do que a registrada no setor privado. E essa diferença foi sempre superior a 35%”, afirmou o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, ao divulgar o estudo. “No último ano do estudo [2006], por exemplo, a administração pública teve uma produtividade 46,6% maior [do que a do setor privado]. O ano em que essa diferença foi menor foi 1997, quando a pública registrou produtividade 35,4% superior à da privada”.

O estudo diz que entre 1995 e 2006 a produtividade na administração pública cresceu 14,7%, enquanto no setor privado esse crescimento foi de 13,5%. “Há muita ideologia e poucos dados nas argumentações de que o Estado é improdutivo, e os números mostram isso: a produtividade na administração pública cresceu 1,1% a mais do que o crescimento produtivo contabilizado no setor privado, durante todo o período analisado”.

Segundo o Ipea, a administração pública é responsável por 11,6% do total de ocupados no Brasil. No entanto, representa 15,5% do valor agregado da produção nacional. “A produção na administração pública aumentou 43,3% entre 1995 e 2006, crescimento que ficou mais evidente a partir de 2004. No mesmo período, os empregos públicos aumentaram apenas 25%. Isso mostra que a produtividade aumentou mais do que a ocupação”, argumentou o presidente do Ipea. "Esse estudo representa a configuração de uma quebra de paradigma, porque acabou desconstruindo o mito de que o setor público é ineficiente”, defendeu Pochmann.

Entre os motivos que justificariam o aumento da eficiência produtiva da administração pública, Pochmann destacou as recentes inovações, principalmente ligadas às áreas tecnológicas que envolvem Informática; os processos mais eficientes de licitação; e a certificação digital, bem como a renovação do serviço público, por meio de concursos.

O presidente do Ipea lembrou ainda que as administrações estaduais que adotaram medidas de choque de gestão, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, não constam entre aquelas com melhor desempenho na produtividade. "Ou tiveram ganho muito baixo, ou ficaram abaixo da média de 1995 a 2006", afirmou, ressalvando que essa comparação não era objetivo do estudo, mas foi uma das conclusões observadas.



segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A estranha ética de Arthur Virgílio


A estranha ética de Arthur Virgílio

O líder do PSDB no Senado reconhece ter recebido vantagens indevidas, como foi denunciado por ISTOÉ, e diz que vai devolver o dinheiro público
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Realmente a casa do senado federal tem se transformado num circo da pior espécie.
Pude ler a matéria acima em ISTO É Independente


LINA & DILMA

Bem que eu andava desconfiando dessa história. Do nada,
e em plena turbulência senatorial, surge a Dona Lina. Viva a internet e seus atentos repórteres sem diplomas. Muito interessante e elucidadivo os comentários que Luciano Martins publica no Observatório da Imprensa.


Uma história mal contada

Há muito mais informações ocultas do que explícitas na controvérsia que se desenrola em função da acusação da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, que afirmou à Folha de S.Paulo ter recebido recomendação da ministra Dilma Rousseff para "agilizar" a fiscalização das empresas da família Sarney. A ministra afirma que simplesmente nunca houve a reunião na qual supostamente teria feito tal recomendação.

Lina Vieira foi ouvida no Senado e não conseguiu se lembrar de dados importantes para dar verossimilhança a sua acusação. Por outro lado, não há registros oficiais de um encontro entre Lina Vieira e Dilma Rousseff no qual poderia ter havido a conversa citada praticamente todos os dias pelos jornais nas últimas semanas.

A imprensa tem investido muito de sua reputação nesse caso, claramente induzindo o leitor a acreditar na versão da ex-secretária da Receita. Mas cresce na internet uma avalancha de informações e especulações que podem dar outra direção a essa história.

Tudo começa no depoimento de Lina Vieira aos senadores. Sentado ao seu lado, um suposto assessor era visto dando dicas ao pé do ouvido da ex-secretária. Jornalistas curiosos e leitores de blogs o identificaram como o publicitário Alexandre Firmino de Melo Filho, marido da depoente.

Mais: revela-se que Alexandre Firmino é assessor do senador Garibaldi Alves, do partido Democratas, foi ministro interino no governo de Fernando Henrique Cardoso e é um dos acusados num processo que envolve a governadora do Maranhão, Roseana Sarney.

Falta reportagem

A Folha de S.Paulo publicou no sábado (22/8) uma pequena nota, no meio do noticiário sobre a controvérsia entre a ex-secretária da Receita e a ministra da Casa Civil, informando resumidamente sobre a circunstância que torna o marido de Lina Vieira, e ela própria, partes interessadas nas encrencas da família Sarney com a Justiça.

Se existe um processo contra Roseana Sarney e Alexandre Firmino é um dos denunciados, observam alguns blogueiros, quem teria supostamente interesse em melar a fiscalização seria a própria ex-secretária da Receita, e não a ministra. Portanto, a história pode vir a ter um desfecho oposto ao entendimento que os jornais vêm dando ao caso.

Se realmente tem interesse em esclarecer a controvérsia, a imprensa deve aos seus leitores uma reportagem completa sobre as relações do marido de Lina Vieira com o clã Sarney.

Por Luciano Martins Costa em 24/8/2009

Comentário para o programa radiofônico do OI, 24/8/2009



domingo, 5 de julho de 2009

PT, PMDB e a chave do cofre

A aliança do PT com o PMDB ameaça os planos Tucanos de retomar a chave do cofre republicano. O segmento paulista do PSDB ( FHC + SERRA + ALKIMIN + DASLU e etc) tem náuseas e vômitos com o fato de verem a chave do cofre com um nordestino semianalfabeto (será???). Querem essa chave de volta a qualquer preço.
A aliança dessa burguesia tucana com a mídia gorda não tem sido muito eficaz, mesmo com os escândalos consecutivos direcionados calculadamente para atingirem o Presidente Lula. Parece que não tem muita importância a corrupção como tal, é imperativo que se encontrem aquelas que possam desestabilizar o governo Lula. Caso contrário, não interessa.
Entretanto, quanto mais criam escândalos mais a popularidade do Presidente aumenta. Por uma razão muito simples: falta substância nas denúncias. E o sofrido povo brasileiro, tão semi-analfeto quanto o seu Presidente, fala uma linguagem diferente. Por outro lado, não se tem conseguido aquele escândalo com o qual os próprios acusadores não estejam envolvidos, haja vista mensalão, empreiteiras e quetais.
Vejamos o recente exemplo dos "atos secretos" do Senado.
Parece que são 650 "atos secretos" beneficiando senadores e seus afins.
Desses "atos secretos" alguns beneficiam o bigodudo José Sarney que, por coincidência, é o Presidente do Senado.
Digamos que dos 650 "atos secretos", dez concedam benefícios ao bigodudo e aos seus apaziguados. Restam 640 "atos secretos".
A quem beneficiam os demais "atos secretos"? Quais senadores fizeram uso desses atos? Parece que o DEM tem 14 senadores; o PSDB tem 13 senadores; o PMDB, a maior bancada, conta com 19 excelências no Senado. Quem desses consegue sair ileso da maracutaia?
Na minha santa ignorância não posso deixar de fazer algumas perguntas:
1. Porque só vira notícia os benefícios auferidos pelo bigodudo e seus afilhados?
2. Quem são e que benefícios auferiram as demais excelências?
3. Porque compete ao Presidente da República (que, por coincidência é o Presidente Lula) determinar a deposição do Presidente do Senado (que, por sinal é o bigodudo do PMDB) ?
4. Se o Presidente da República (que, por coincidência é o Presidente Lula) tem que determinar a renúncia do bigoduto, terá que determinar também a renuncia de, pelo menos, 4/5 do senado federal. Isto compete ao Presidente (que, por coincidência é o Presidente Lula)?
5. Não tenho escutado os discursos inflamados, e sinto falta deles, do neto do Senador Antonio Carlos Magalhães. Onde estão o Demóstenes Torres, Efraim Moraes, Magno Malta, Marcelo Crivela, Heráclito Fortes, etc, etc...?
Respondidas ou não as dúvidas acima, passa-me a impressão de que, na realidade, determinada mídia está pouco se incomodando com a corrupção.
Parece que, basta ler ou entreler o conteúdo das manchetes, o que importa são apenas aquelas corrupções que possam atingir, direta ou indiretamente, o presidente da república (que, por coincidência é o Presidente Lula).
Passa-me a impressão, também, de que essa campanha de determinada mídia tem muito pouco a ver com questões éticas ou morais e tudo a ver com o fato de que o PMDB confere apoio e sustentação política ao Presidente (que, por coincidência é o Presidente Lula).
Esse apoio do PMDB é uma ameaça aos planos da tucanada de tomar a chave do cofre republicano de volta. Daí torna-se imperioso provocar um racha do PT com o PMDB e, com isso, limpar a enlamaçada estrada de volta da tucanada ao ninho do planalto.
Só que Lula (por coincidência Presidente) tem se mostrado muito mais esperto do que os discípulos de FHC e não caiu na esparrela de exigir a cabeça do bigodudo.
Muito esperto, o Lula. Para decepção de suas excelências do PSDB e do DEM.
Parece que o golde não está dando certo.
Vamos ver qual será o próximo. Afinall não devemos subestimar a perseverança e a criatividade - duvidosa - da mídia gorda e seus vassalos.

imagem: http://cangarubim.blogspot.com/2009/07/heraclito-acusado-de-usar-e-omitir-atos.html

sábado, 4 de julho de 2009

Governo usará Caixa Econômica para aumentar concorrência no mercado de cartões


Até que enfim alguma coisa parece estar sendo articulada para diminuir a ditadura do Cartão de Crédito.
Vi a notícia no sitio do DIAP e deixo registrada neste meu caderno. Certamente não merecerá destaque na mídia gorda.
Afinal não consigo ver outra função para a Caixa Econômica e o Banco do Brasil que não seja a função social: é no exercício dessa função que reside o seu lucro.
É óbvio que a "professora" de economia Miriam Leitão não concordará com a idéia e fará uma coluna no Globo explicando bem direitinho que o Banco do Brasil e Caixa Econômica irão amargar prejuízos e isso desagradará os acionistas. Haja saco.....

Parabéns Lula.


Sáb, 04 de Julho de 2009 14:39 - (Fonte: Correio Braziliense).


O Governo vai intervir pesadamente no mercado de cartões de crédito, considerado hoje o principal nó do mercado financeiro, por ser pouquíssimo regulado, o que facilita a cobrança de taxas de juros abusivas que chegam a 300% ao ano.
Além das medidas que estão sendo preparadas pelo Banco Central para enquadrar o setor, a serem anunciadas no fim de setembro, a Caixa Econômica Federal deverá criar uma empresa independente para administrar cartões, voltados, principalmente, à baixa renda, impondo maior concorrência no mercado.
"Vamos cuidar de todos os processos, desde a emissão do cartão até a instalação de máquinas no comércio e o processamento das operações", disse um executivo da Caixa.
"Não há mais como esse mercado ser dominado por apenas duas empresas (Visanet e Redecard), que impõem custos altíssimos aos comerciantes e aos consumidores. Isso não é compatível com o processo de concorrência que o BC está impondo ao sistema financeiro", acrescentou.
O modelo a ser executado pela Caixa ainda não está fechado. O banco pode operar de forma independente ou mesmo em parceria com outra empresa de menor porte que já tenha experiência no mercado de cartões de crédito, uma delas, a Hipercard.
"Tudo está sendo avaliado. O importante é que vamos entrar no mercado de cartões e usar a força da Caixa para pressionar a queda dos juros e dos preços dos serviços cobrados do comércio", afirmou o executivo do banco estatal.


Banco do Brasil


O Governo também pretende usar o Banco do Brasil para ampliar a concorrência no mercado de cartões. O BB é um dos principais acionistas da Visanet, que opera a marca Visa.
Por meio do BB, será possível mapear os custos operacionais da Visanet e verificar porque a empresa cobra tão caro dos comerciantes, sobretudo dos de pequeno e médio portes, para operar suas máquinas.
Há indicações de que, nos estabelecimentos beneficiados pelo Simples, os lojistas pagam mais pelo uso da rede de cartões do que em impostos ao Governo.
"É um tremendo absurdo", reconhece um técnico do Ministério da Fazenda, envolvido nas discussões governamentais sobre o setor.
Na avaliação do Banco Central, qualquer medida com o intuito de ampliar a concorrência no mercado de cartões e de reduzir os custos ao comércio e aos consumidores é bem-vinda.
Segundo técnicos da instituição, esse setor já se aproveitou demais da falta de uma regulamentação adequada para cometer abusos.
"Não há mais como fechar os olhos para as incorreções no mercado de cartões. Recebemos, por meio de uma audiência pública, 57 sugestões de mudanças e aperfeiçoamentos do setor. E vamos adotar tudo o que favoreça a ampla concorrência", assinalou um dos técnicos do BC.
Ele, inclusive, já dá como certa a liberação para que haja diferenciação entre o pagamento à vista e com cartão, hoje proibido.

Concentração


Diagnóstico da indústria de cartões no Brasil, feito pelo Banco Central com a ajuda da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça e da Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, mostra que Visa e Mastercard respondem por mais de 90% das transações com cartões de crédito e de débito.
É um duopólio.
Para chegar a esse percentual, o Banco Central considerou apenas os cartões que podem ser usados no comércio em geral.
Na estatística não estão incluídos os cartões pré-pagos e os de loja, que só podem ser utilizados em estabelecimentos específicos
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terça-feira, 30 de junho de 2009

Folha de São Paulo & Dilma Rousseff

Sou contumaz leitor do jornal Folha de São Paulo em fins de semana. Ainda é um dos poucos jornais - o único talvez - em que ainda deposito alguma credibilidade.

Li com especial interesse a matéria publicada no domingo 05/04 cuja manchete dava a entender que a Ministra Dilma teria participado de um elaborado plano para sequestrar Delfim Neto. Como não constava em minha memória histórica que Delfim Neto tenha sido algum dia sequestrado e como, mesmo não tendo no momento nenhuma militância político partidária, estou me transformando num admirador da Ministra Dilma, li muito atentamente toda a matéria. No final me dei conta de que o conteúdo não tinha a relevância que pude imaginar. Até aí tudo bem.


Foto: (www.agenciabrasil.gov.br)

O pior é que desdobramentos mais recentes da matéria dão conta de que tudo foi uma grande mentira da Folha de São Paulo. Ainda pior é saber que a matéria foi montada em cima de documento grosseiramente falsificado. Que decepção!

Estará a Folha de São Paulo trilhando o mesmo caminho da Revista Veja? Custa-me acreditar. Mas agora fica difícil acreditar no Jornal.

Tudo indica que a Ministra resolveu jogar duro. E não poderia ser diferente.

Faço questão de deixar registrado no meu modesto blog a carta expedida pela Ministra Dilma para o Ombudsman da Folha de S. Paulo.

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Senhor Jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva

Ombudsman da Folha de S. Paulo,

1. Em 30/03/2009, a jornalista Fernanda Odilla entrevistou-me, por telefone, a pedido do chefe de redação da Folha de S.Paulo, em Brasília, Melchíades Filho, acerca das minhas atividades na resistência à ditadura militar.

2. Naquela ocasião ela me informou que para a realização da matéria jornalística, que foi publicada dia 05/04/09, tinha estado no Superior Tribunal Militar – STM. No entanto, eu soube posteriormente que, com o argumento de pesquisar sobre o Sr. Antonio Espinosa, do qual detinha autorização expressa para tal, aproveitara a oportunidade e pesquisara informações sobre os meus processos, retirando cópias de documentos que diziam respeito exclusivamente a mim, sem a minha devida autorização.

3. A repórter esteve também no Arquivo Público de São Paulo, onde requereu pesquisa nos documentos e processos que me mencionavam, relativos ao período em que militei na resistência à ditadura militar. Neste caso, é política do Arquivo de São Paulo disponibilizar livremente todos os dados arquivados e, em caso de fotocópia, autenticar a cópia no verso com os dizeres "confere com o original", com a data e a assinatura do funcionário responsável pela liberação do documento.

4. Os documentos pesquisados pela jornalista foram aqueles relativos ao Prontuário nº 76.346 e as OSs 0975 e 0029, sendo também solicitadas extrações de cópias.

5. Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha participação ou meu conhecimento do suposto seqüestro de Delfim Neto, a matéria publicada tinha como título de capa "Grupo de Dilma planejou seqüestro do Delfim". O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de "factóide", uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha de S.Paulo.

6. O mais grave é que o jornal Folha de S.Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br ("terrorismo nunca mais"), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.

7. Após a publicação, questionei por inúmeras vezes a Folha de S.Paulo sobre a origem de tal ficha, especificamente o Sr. Melchiades Filho, diretor da sucursal de Brasília. Ele me informou que a jornalista Fernanda Odilla havia obtido a cópia da ficha em processo arquivado no DEOPS – Arquivo Público de São Paulo. Ficou de enviar-me a prova.

8. Como isso não aconteceu, solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 05/04/2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de S.Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos.

9. Mais estranho ainda é que a legenda da ficha publicada pela Folha dizia: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu". Ora, se a Folha sabia que os chamados crimes atribuídos a mim não foram por mim cometidos, por que publicar a ficha? Se optasse pela publicação, como ocorreu, por que não informar ao leitor de onde vinha a certeza da falsidade? Se esta certeza decorria de investigações específicas realizadas pela Folha, por que não informar ao leitor os fatos?

10. O Arquivo Público de São Paulo também disponibilizou cópia do termo de compromisso assinado pela jornalista quando de sua pesquisa, ficando evidente que a repórter não teve acesso a nenhum processo que tivesse qualquer ficha igual à publicada no jornal.

11. Mais ainda: a referida não existe em nenhum dos arquivos pesquisados pela jornalista, seja o STM, seja o Arquivo Público de São Paulo. O fato é que até o momento a Folha de S.Paulo não conseguiu demonstrar efetivamente a origem do documento.

12. Considero ainda que a matéria publicada na sexta-feira,17 de março, em que a Folha relata as minhas declarações ao jornalista Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, não esclarece o cerne da questão sobre a responsabilidade do jornal no lamentável e até agora estranho episódio: de onde veio a ficha que afirmo ser falsa?

13. Após 21 dias de espera, não acredito ser necessária uma grande investigação para responder à seguintes questões: em que órgão público a Folha de S.Paulo obteve a ficha falsa? A quem interessa essa manipulação? Parece-me óbvio que a certeza sobre a origem de documentos publicados como oficiais é um pré-requisito para qualquer publicação responsável.

14. Transcrevo abaixo o texto literal do termo de responsabilidade assinado pela jornalista em 22/01/09:

"Declaro, para todos os fins de Direito, assumir plena e exclusiva responsabilidade, no âmbito civil e criminal, por quaisquer danos morais ou materiais que possa causar a terceiros a divulgação de informações contidas em documentos por mim examinados e a que eu tenha dado causa. Ficam, portanto, o Governo do Estado de São Paulo e o Arquivo do Estado de São Paulo exonerados de qualquer responsabilidade relativa a esta minha solicitação.

Declaro, ainda, estar ciente da legislação em vigor atinente ao uso de documentos públicos, em especial com relação aos artigos 138 e 145 (calúnia, injúria e difamação) do Código Penal Brasileiro.

Assumo, finalmente, o compromisso de citar a fonte dos documentos (Arquivo do Estado de São Paulo) nos casos de divulgação por qualquer meio (imprensa escrita, radiofônica ou televisiva, internet, livros, teses, etc)." (Cópia em anexo)

15. Por último, cabe deixar claro que a ficha falsa foi divulgada em vários sites de extrema direita, como: a) Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), blog de apoio ao Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, ficha falsa postada em 30 de novembro de 2008; b) Coturno Noturno – Blog do Coronel: ficha falsa postada em 27 de março de 2009 (a ficha está "atualizada" apresentando uma foto atual) (http://coturnonoturno.blogspot.com/2009/04/desta-parte-dilma-lembra-tudo.html). A partir daí, outros sites na internet também divulgaram a ficha: a) http://fórum.hardmob.com.Br/showthread.php; b) http:/www.viomundo.com.Br/blog/dilma-terrorista/

16. Estou anexando a este memorial cópia de alguns documentos que considero importantes para sua avaliação:

** Termo de responsabilidade assinado pela jornalista no Arquivo de SP;

** Cópia de fichas onde consta a foto (ou idêntica) à utilizada para montagem da ficha usada pela Folha de S.Paulo

** Cópia da solicitação da jornalista Fernanda Odilla ao STM de acesso a informações sobre Antonio Espinosa

** Autorização do Sr. Antonio Espinosa para acesso aos seus documentos

** Termo de Compromisso assinado pela jornalista Fernanda Odilla junto ao STM.