PenseLivre On Line

Como dizia apropriadamente Samuel Wainer: A PENA É LIVRE, MAS O PAPEL TEM DONO.
Os blogs permitem que, por algum momento, possamos ter a pena livre e, ao mesmo tempo, ter a propriedade do papel.
Neste blog torno públicas algumas reflexões pessoais, textos e publicações pinçadas da web e que me fizeram pensar e repensar melhor a realidade.
Este blog é uma pretenção cidadã e...nada mais!

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Marina Silva, o Brasil e a CIA

Quem já leu GUERRAS SUJAS de Jeremy Scahill não vai se surpreender com o conteúdo da matéria que transcrevo abaixo, publicado no site Grupo Beatrice.


Marina Silva é atual candidata do Partido Socialista à presidência do Brasil. Em meados dos anos 1980s, ela já atraíra a atenção da CIA, quando frequentava a Universidade do Acre. Naquele momento, estudava marxismo e tornara-se membro do Partido Comunista Revolucionário, clandestino. Durou pouco aquele ‘compromisso’: ela rapidamente se transferiu para a ‘proteção do meio ambiente’ na Região Amazônica. Os serviços especiais dos EUA sempre tiveram interesse muito especial naquela parte do continente, na esperança de construírem meios para controlar a área no caso de emergência geopolítica. A CIA fez contato com Marina Silva. Não por acaso, em 1985 ela alistou-se no Partido dos Trabalhadores (PT), o que lhe abriu novas possibilidades de crescimento político.

Em 1994, Marina Silva foi eleita para o senado brasileiro, com fama de ativista apaixonada a favor da proteção ao meio ambiente. Foi quando começaram a circular informações sobre laços entre Marina Silva e a CIA. Em 1996, ela recebeu o Goldman Environmental Prize.
[1] E recebeu inúmeras outras importantes condecorações: é praxe, quando se trata de ‘candidatos’ que a CIA tem interesse em promover, que o ‘candidato’ seja coberto de medalhas e condecorações.

Marina Silva serviu como ministra do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até que, interessada em ‘voos mais altos’, e preterida, ela abandonou o Partido dos Trabalhadores e mudou-se para o Partido Verde, de início dedicada a protestar contra políticas ambientais apoiadas pelo PT.  Foi realmente um choque, na política brasileira, que a ex-ministra tenha mudado tão completamente de lado, depois de quase 30 anos de atividade a favor do Partido dos Trabalhadores.

Nas eleições de 2010, a candidata da CIA obteve quase 20 milhões de votos, como candidata do Partido Verde; na sequência, para as eleições de 2014, aceitou lugar na chapa de Campos, como vice-presidenta, quando fracassaram seus esforços para criar seu ‘não partido’, mas ‘rede’, chamada “Sustentabilidade”. Dilma Rousseff, candidata do PT contra a qual se alinhavam já em 2010 todas as demais candidaturas, trazia planos para dar continuação às políticas independentes do presidente Lula. Nada disso interessava a Washington em 2010, como tampouco interessa hoje, em 2014.

Daquele momento até hoje, as relações entre Brasil e EUA só fizeram piorar, resultado do escândalo da espionagem & escutas clandestinas. A Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a presidenta Dilma Rousseff e membros de seu gabinete. A presidente brasileira chegou a cancelar visita oficial que faria aos EUA, como sinal de protes. Os EUA jamais apresentaram pedido de desculpas ou comprometeram-se a pôr fim às atividades de espionagem. A presidenta Dilma, então, agiu: denunciou as atividades da Agência de Segurança Nacional e da CIA dos EUA na América Latina e tomou medidas para aumentar a segurança nas comunicações e controle sobre representantes dos EUA ativos no Brasil. Obama não gostou.

As eleições presidenciais no Brasil estão marcadas para 5 de outubro. E  Washington está decidida a fazer de Dilma Rousseff presidenta de mandato único. Não há dúvida alguma de que os serviços especiais já iniciaram campanha para livrar-se da atual governante brasileira. Começaram a agir com movimentos de protesto ditos ‘espontâneos’, que encheram algumas ruas e foram amplamente ‘repercutidos’ na imprensa, nos quais os ‘manifestantes’ pedem mudanças (aparentemente, qualquer uma, desde que implique ‘mudança de regime’) e o fim das “velhas políticas” [de fato, nenhuma política é ou algum dia será ‘mais velha’ que o golpismo orquestrado pela CIA no Brasil e em toda a América Latina (NTs)]. Ouviram-se grupos de jovens em protestos contra a propaganda e os símbolos dos partidos políticos, especialmente do PT.

Não se sabe até hoje de onde surgiram os recursos com os quais Marina Silva começou a organizar sua ‘rede’ Sustentabilidade. A nova ‘organização’ visava a substituir os partidos tradicionais, que a candidata declarou ‘velhos’. Tendo obtido 19 milhões de votos, o que lhe valeu o 3º lugar nas eleições passadas, ela contudo não conseguiu cumprir todas as exigências legais para criar oficialmente sua nova ‘rede’. Até que a tragédia que matou Eduardo Campos e seis outras pessoas, perto de São Paulo, mês passado, deu a Marina Silva uma surpreendente segunda chance para tentar chegar à presidência do Brasil. Para conseguir ser a primeira mulher mestiça a chegar à presidência do Brasil, terá de derrotar a primeira mulher que chegou lá antes dela, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, PT; além o candidato Aécio Neves do PSDB, partido pró-business, que hoje amarga um 3º lugar nas pesquisas. A Casa Branca tem-se sentido frustrada.

Dia 13 de agosto, a campanha eleitoral presidencial no Brasil foi lançada em área de incerteza, quando um jato que conduzia o candidato do partido socialista, Eduardo Campos, tombou sobre bairro residencial próximo de São Paulo. Morreram o candidato e seis outras pessoas, passageiros e da tripulação, no acidente que pode ter acontecido por causa do mau tempo, quando o Cessna preparava-se para pousar. As mortes geraram uma onda de comoção nacional, que provavelmente evoluirá para especulações sobre o efeito que terão nas eleições do próximo 5 de outubro. A presidenta Rousseff declarou três dias de luto oficial por Campos, ex-ministro do governo do presidente Lula. A aeronave passara por manutenção técnica regular e nenhum problema foi detectado. De estranho, só, que o gravador de vozes da cabine do avião não estava operando, o que gerou suspeitas. O gravador operara normalmente e gravara várias conversações na cabine, mas nada gravou no dia da tragédia. O avião já passara por vários proprietários (empresários norte-americanos e brasileiros, representantes de empresas de reputação duvidosa), antes de chegar à campanha dos candidatos Eduardo Campos e Marina Silva.

Para alguns comentaristas brasileiros, há forte probabilidade de que tenha havido um atentado, que resultou no assassinato de Eduardo Campos. Antes da tragédia, o avião foi usado pela agência antidrogas dos EUA, Drug Enforcement Administration (DEA). Enviados de antigos proprietários do avião tiveram acesso ao local do acidente, sob os mais diferentes pretextos. Difícil não conjecturar se teria havido agentes dos EUA por trás da tragédia. Mas ainda não se sabe exatamente sequer o que aconteceu. Saber quem fez, se algo foi feito,  demorará ainda mais.

O avião decolou do Rio de Janeiro, onde opera uma estação da CIA, em território do consulado dos EUA. Não há dúvidas de que aquele escritório é usado pela Agência. Talvez os serviços especiais do Brasil devessem dar atenção especial a personagens que rapidamente deixaram o país, imediatamente depois da tragédia em Santos. A morte de Eduardo Campos teve efeito instantâneo sobre a candidatura do Partido Socialista: Eduardo Campos jamais passara dos 9-10% de preferência nas pesquisas, mas Marina Silva rapidamente surgiu com 34-35%, na votação em primeiro turno. Agora, se prevê que a eleição seja levada para o segundo turno.

O principal problema de Marina Silva é que é sempre difícil entender quais seriam suas reais intenções e projetos. É uma espécie de ‘imprecisão’ que se observa constantemente no discurso de candidatos promovidos pelos EUA. Marina Silva  mudou de lado, sempre muito dramaticamente, inúmeras vezes. Ao unir-se a Eduardo Campos, por exemplo, a candidata várias vezes se manifestou a favor de manter bem longe do Brasil as ideias de Chavez (Hugo Chavez – falecido presidente da Venezuela, conhecido pelas convicções socialistas e políticas de esquerda). Mas ela serviu ao governo do presidente Lula, conhecido e muito respeitado defensor do chavismo. (...)

De fato, ao tempo em que a campanha avança e as eleições aproximam-se, Marina Silva vai-se tornando cada vez mais neoliberal. Já disse que não vê sentido em fazer dos BRICS um centro de poder multipolar, nem em apressar a implementação de medidas já decididas dentro do bloco, como criar um banco de desenvolvimento, um fundo de reserva, etc. Já manifestou ‘dúvidas’ sobre o Conselho Sul-americano de Defesa, e diz, em discussões com assessores íntimos, que quer dar menos atenção ao Mercosul e à Unasul (União das Nações Sul-americanas, união intergovernamental em que se integram duas uniões aduaneiras, o Mercosul e a Comunidade de Nações Andinas, como parte do processo de integração sul-americana). Para Marina Silva, mais importante é desenvolver relações bilaterais com os EUA.

Fato é que os brasileiros estão já habituados a quase 20 anos de progresso social no país, com os governos do presidente Lula e da presidenta Rousseff. A população é ouvida, as reformas acontecem, o que foi prometido está sendo construído, o Brasil vive tempos de estabilidade e de avanços.

Se Marina Silva chegar à presidência (George Soros, magnata  norte-americano, investidor e filantropo, tem alimentado a campanha dela com quantidade significativa de fundos), deve-se contar com o fim de vários programas sociais e políticos, o que pode vir a gerar grave descontentamento popular.  Há quem diga que os escritórios dos EUA no Brasil estão repletos de agentes dos serviços especiais, encarregados de ‘gerar’ ‘protestos’ naquele país. ***** 


* Nil Nikandrov é jornalista, russo, trabalha em Moscou e cobre questões de política latino-americana; é conhecido crítico da devastação que governos neoliberais promoveram em economias nacionais por todo o planeta. É autor da primeira biografia de Hugo Chávez em russo (NTs, com informações de http://www.4thmedia.org/category/nil-nikandrov/).

[1] Sobre o prêmio, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Goldman_Environmental_Prize . Além de Marina Silva, outro brasileiro  recebeu esse prêmio, um “Carlos Alberto Ricardo”, fundador da ONG “Instituto Socioambiental”, em 1992, como se lê em http://en.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Ricardo [NTs].

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Chile: El otro terrorismo

As tentativas de desestabilização dos países da América Latina não são nenhuma novidade. Reproduzo esta interessante reflexão publicada em SIN PERMISSO

Oscar Cornejo Rideau
El atentado ocurrido en el Metro es un hecho gravísimo y enteramente condenable, eso no está en discusión. Sin embargo, a raíz de este lamentable acontecimiento han proliferado otros hechos que son aún más inquietantes y ante los cuales se debe estar en máxima alerta, sobre todo, porque ellos sí que tienen la capacidad de alterar severamente el estado de derecho y la vida de las personas.
Luego de la explosión, los medios se han dado una suerte de festín sensacionalista y han presentado hipótesis de todo tipo, conectando gratuitamente sucesos que no tienen ningún tipo de relación lógica, por ejemplo, los robos de cajeros automáticos con los avisos de bomba, o el asalto del camión Brinks en el aeropuerto, con los paquetes sospechosos encontrados en el metro.
En medio de este frenesí conspirativo, que es bastante esperable en esta situación, se le ha dado tribuna a ciertas voces que bajo el título de expertos, han dado declaraciones francamente inaceptables. Por mencionar sólo una, en canal 13, en una entrevista en vivo que duró cerca de dos horas, el señor Jorge Valdés, experto en seguridad, declaró reiteradamente que era urgente que la ley antiterrorista se volviera más severa, incorporando facultades tales como la infiltración de agentes del Estado en “las juntas de vecinos, los sindicatos y las universidades”, porque, según él, una gran organización terrorista con “formación en Chile y en el extranjero” estaba detrás de “todas las explosiones” y buscaba “imponer el terror” en la nación. A su juicio, era “evidente que estos grupos estaban instruidos por el grupo Lautaro y diversas organizaciones anarquistas”, que ahora se sentían con plena libertad de actuar. Estas atribuciones debían, de ser necesario, ejercerse inmediatamente, incluso si la ley no las contemplaba.
Con un tono similar, el ex jefe nacional de inteligencia sostenía que el ministro Hinzpeter había sido injustamente criticado por querer imponer “mano dura” en medio del clima de caos que imperaba en el país, y que fue un profundo error no aplicar la ley antiterrorista toda vez que fue necesario, por ejemplo, en los atentados de la Araucanía.
Estas declaraciones se suman a otras que afirmaban todo tipo de cosas, como la necesaria incorporación de tropas especiales en el conflicto mapuche, la eliminación de las “excesivas garantías” para los encapuchados, hasta barbaridades dichas por peatones entrevistados “al azar” que iban desde “sacar los militares a la calle” hasta el retorno de la detención por sospecha. Todas ellas seguidas de las repeticiones de desafortunados reportajes sobre grupos anárquicos, algunos con errores tan groseros como aquel que afirmaba, sin tapujo, que dentro de las facciones más peligrosas de los “terroristas”, se encontraban los denominados “veganos”.
En todo esto el gobierno tampoco se ha quedado atrás, invocando sucesivas veces la ley antiterrorista, la misma que se había comprometido a no usar y que ha recibido severas críticas de parte de los organismos internacionales por vulnerar los derechos humanos, la proporcionalidad de la pena, la no discriminación racial, entre otros principios mínimos de justicia.
Más allá de los ejemplos, que son muchos, urge que la ciudadanía esté extremadamente atenta al posible uso malintencionado de los acontecimientos que hacen ciertas personas cuyos fines políticos e ideológicos no son precisamente los de proteger a la ciudadanía, sino los de propiciar un falso clima de pánico en donde se justifique la vulneración de garantías constitucionales y se criminalicen los movimientos sociales, evadiendo las demandas de fondo que han sido sostenidas por la población.
La conexión inescrupulosa de acontecimientos que pretende poner en un mismo saco al nuevo gobierno, a la delincuencia, a los estudiantes, a los mapuches y a la desaceleración de la economía, no es una estrategia nueva en la política nacional, sino que forma parte del repertorio común de los grupos minoritarios cuando ven sus intereses amenazados por el empoderamiento de los ciudadanos. Son estos los que, pese a no andar encapuchados y a usar armas más refinadas que las latas de jurel con pólvora, conforman las verdaderas asociaciones terroristas que padece el país.
La principal recomendación en esta situación es permanecer en constante sospecha, condenando severamente el ataque de inocentes, mas no dejándose atrapar por la verborrea de sectores tanto o más extremistas que los autores del atentado, pues únicamente una ciudadanía crítica puede estar realmente a salvo del terrorismo, en cualquiera de las múltiples formas en las que se presente.
Oscar Cornejo Rideau, estudiante de humanidades, ensayista.

sábado, 9 de agosto de 2014

EUA e Israel: unidos pelo regime liberal e o genocídio

Trancrevo o texto abaixo, publicado originalmente no CORREIO DA CIDADANIA. Uma revisão resumida e esclarecedora do libealismo inserida em contexto atual. (José Amorim de Andrade)

ESCRITO POR RAMEZ PHILIPPE MAALOUF

QUI, 07 DE AGOSTO DE 2014

O Liberalismo é uma ideologia forjada por uma nobreza mercantil no século XVII, na Inglaterra e na Holanda, não tardando a ser disseminada nas treze colônias britânicas da América. O ideário liberal, que tomou a forma mais bem acabada com o filósofo inglês John Locke, no final do século XVIII, apregoa a defesa da propriedade, da escravidão, do individualismo, do segregacionismo, da supremacia racial branca anglo-saxã protestante, do elitismo, do autoritarismo e do utilitarismo.

O regime liberal dos EUA passou a ser considerado um governo democrático apenas quando o pensador liberal francês Alexis de Tocqueville escreveu A Democracia na América, por volta de 1832. Ele também foi o primeiro intelectual a defender abertamente o extermínio de populações árabes, quando a França invadiu e ocupou a Argélia em 1830.

Os EUA nasceram, no entanto, em 4 de julho de 1776, por meio de um fronda de senhores de escravos contra o Reino Unido que buscavam garantir o direito de exterminar os índios para roubar-lhes as terras e de escravizar os negros oriundos da África. Uma vez vencida a guerra de independência contra os britânicos, em 1781, os EUA passaram a ser governados por uma ditadura militar de facto, que, por meio de um golpe de Estado da Convenção Constitucional, estabeleceu a ditadura do general George Washington, visando esmagar as revoltas populares contra o pagamento dos pesados impostos que incidiam sobre a população mais pobre e exterminar tribos indígenas que haviam se aliado à Inglaterra durante o processo de emancipação.

Além de ter nascido por meio de frondas, golpes de Estado e ditadura militar – que serviram de inspiração para o despotismo de Napoleão Bonaparte na França, profundo admirador do regime militar de George Washington e do presidencialismo imperial existente na jovem nação ianque –, os EUA, com uma economia assentada na mão-de-obra escrava, se constituíram como um dos primeiros Estados raciais da História, isto é, onde o racismo e o segregacionismo racial eram leis.

Até o início da segunda metade do século XX, era comum negros (homens, mulheres, crianças e idosos) serem linchados e queimados vivos em locais públicos nos EUA, especialmente no sul do país, para divertimento de famílias brancas. Muitos destes negros eram enforcados em árvores, permanecendo pendurados por dias. A cantora negra Billie Holiday compôs uma bela e triste canção denunciando as “estranhas frutas” penduradas nas árvores do sul dos EUA. Estranhas frutas do ódio racial imposto legalmente por um Estado liberal, a “democracia dos senhores brancos de escravos”.

Toda esta violência racial convivia harmoniosamente com a convocação regular de eleições para os legislativos e executivos estaduais e federal, sem qualquer interrupção desde 1789. Esta é natureza do regime liberal, o estabelecimento de um Estado policial permanente contra as populações pobres e de etnias diferentes daquelas da classe de proprietários, ao lado de um sistema representativo de poder, com eleições regulares.

Hoje, o regime liberal dos EUA permite “eleger” um presidente negro (ou quase) ao mesmo tempo em que mantém mais de 2,5 milhões de jovens negros nas cadeias em todo o país. Outros milhares de negros são assassinados nas grandes cidades dos EUA por causa de disputas degangs, consumo de drogas, sistema de saúde falido e repressão policial.

Por este motivo, não podemos estranhar a aliança quase carnal dos EUA com Israel. Suas histórias se confundem e se fundem. Não se trata apenas de uma aliança que é regida por um poderoso lobby, trata-se de um desdobramento quase natural do reconhecimento de uma nação fundamentada no ódio racial e na alienação de terras de povos autóctones a outra nação forjada sob as mesmas bases coloniais, racistas e segregacionistas.

Agora, desde o início de julho de 2014, em mais um capítulo de sua história de crimes contra a Humanidade, Israel bombardeia a Faixa de Gaza, exterminando mais de 1800 palestinos, sem que este território possa oferecer qualquer forma de defesa efetiva. O massacre começou dias após “colonos” sionistas assassinarem uma criança palestina na Cisjordânia, queimando-a viva em suposta vingança pelo assassinato de três jovens “colonos” sionistas, de autoria desconhecida até o presente momento. Trata-se, como visto, de uma lamentável repetição dos linchamentos de negros e chineses nos EUA ao longo do século XX.

Não faltarão pensadores, até mesmo entre ditos esquerdistas, que dirão que, apesar de toda forma de violência ser promovida contra os palestinos, Israel é uma “democracia vibrante” porque há eleições regulares, partidos esquerdistas legalizados (inclusive o “comunista”), justiça supostamente independente e uma sociedade civil com ampla liberdade de expressão. Só podemos afirmar que quem faz este tipo de declaração, colocando a “liberdade” em termos abstratos acima do direito à vida, está propenso a aceitar e a perpetrar os piores crimes contra a Humanidade.

Na verdade, esta declaração é a verdadeira essência genocida do Liberalismo – a ideologia do capitalismo –, que segue sendo, após mais de 350 anos de existência, o maior inimigo da Humanidade.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A Alemanha e o Brasil na Copa 2014

O mundo sai desta Copa encantado com o nosso país, nossas riquezas naturais, nossas belezas e a riqueza cultural de nosso povo. É verdade que nesta Copa mostramos muita coisa maravilhosa, menos futebol. Faz parte.

Depois do que passamos nesta Copa do Mundo, a leitura dessa matéria se torna relevante.

José Amorim de Andrade

Alemanha, o país do futebol

por Guilherme Pavarin e Alexandre Versignassi

(na Revista Super Interessante)

No comecinho dos anos 2000, o grandalhão Oliver Bierhoff era o maior - e bota maior - símbolo do então apático futebol alemão. Experiente, corpulento, de canelas longas, pouca técnica e quase nenhuma movimentação, o centroavante abusava dos seus 1,91 m para finalizar as jogadas do único jeito que sabia: pelo alto, entre os zagueiros, cabeceando firme para dentro das redes. O movimento era repetido à exaustão. Jogo a jogo.
Na Eurocopa de 2000, na Bélgica, os alemães sentiram a limitação bater na ponta das chuteiras. Atirados em um grupo com equipes fortes - Inglaterra, Portugal e Romênia -, caíram logo na primeira fase, marcando apenas um ponto e um gol. Vexame para uma camisa tricampeã mundial, que já tinha vestido Franz Beckenbauer, Karl Rummenigge, Paul Breitner. "Estávamos pensando exatamente como vocês brasileiros pensam hoje: que não precisávamos aprender nada. E fomos jogando cada vez pior, pior e pior", resumiu o próprio Breitner numa entrevista recente para o canal ESPN Brasil. Mas a queda em 2000 fez os alemães acordarem. Autoridades foram a público e tornaram o desempenho da seleção assunto de estado. O governo traçou um plano ambicioso: em uma década, a Alemanha deveria voltar a ser uma potência futebolística.
A missão, afirmaram os governantes, era fazer com que a população voltasse a se encantar com o esporte. O país, então, botou a mão no bolso. Em pouco mais de 12 anos, investiu cerca de US$ 1 bilhão em academias e centros de treinamentos para jovens. A ideia era usar esses CTs públicos para ensinar futebol com uma receita em duas medidas: 50% habilidade, 50% força - em vez dos 200% força que a seleção vinha aplicando.
Quem cuida de tudo lá é a DFB (Associação Alemã de Futebol), a CBF deles. Ligada ao governo, a associação alemã é dona de 366 centros futebolísticos. Desde 2001, crianças de 9 a 17 anos desenvolvem seus talentos em academias perto de suas casas, sem vínculo com clubes. Cerca de mil técnicos treinam 25 mil jovens. A DFB, na verdade, é tudo o que a CBF não é. A nossa Confederação Brasileira de Futebol é um órgão privado, e não possui nenhum projeto de formação de jogadores além das seleções de base (sub-15, sub-17 e sub-20), que só pinçam jovens talentos que já treinam em algum clube. E tem a corrupção - os escândalos se avolumam há décadas.
Enquanto isso, na Alemanha, a DFB tratou de reformar a Bundesliga - o campeonato nacional deles. A primeira foi impor uma política financeira rigorosa. Os clubes passaram a ter que enviar, três vezes ao ano, atestados de orçamento positivo. Analisados um a um, os casos deveriam seguir à risca um livro de 200 páginas que especifica normas financeiras.
Se aprovados, ok, podem jogar a liga. Do contrário, W.O.: perdem pontos e, se a "infração" administrativa for grave, nem entram em campo. Assim, nenhuma extravagância, como contratar um Neymar, poderia ser feita sem que o clube desse garantias de poder efetuar o pagamento. Tal controle foi capaz de praticamente extinguir as dívidas das equipes locais. Dos 30 times da Bundesliga, só dois têm dívidas. E o gasto com salários não passa de 50% da receita dos clubes; em outros países, o valor chega a 70%. No Brasil, a dívida dos 20 maiores clubes é de R$ 4 bilhões. Na Inglaterra, de R$ 11 bilhões.
Com esse pacotão, a missão alemã estava clara: gerar novos talentos e nutrir o futebol deles numa competição sustentável. Hoje, 13 anos depois, os resultados são sólidos. Bayern e Borussia Dortmund, dois dos grandes clubes da nação, foram os finalistas da Champions League, o principal torneio interclubes do mundo. Como numa boa lavoura, proliferam novos craques. Mario Goetze, de 20 anos, André Schürrle, de 22, mais Marco Reus e Thomas Müller, de 23, são alguns nomes que fazem Bierhoff e seus antigos companheiros parecem praticantes de outro esporte. Para completar, a liga do país tem o melhor público do mundo, média de 45 mil pessoas por jogo (40% são mulheres). Só a torcida do Borussia Dortmund tem média de 80 mil (!) por jogo. É uma final de Libertadores no Maracanã a cada domingo - coisa inédita na história do futebol. Não tem comparação: média de público do Brasileiro é 15 mil pessoas. A da segunda divisão alemã é de 17 mil. Nossa média, aliás, é só a 13º do mundo, atrás de China e EUA.
O fato é que nenhum país trata o futebol tão a sério quanto a Alemanha. E não é só para tentar ganhar troféus. Quando eles propuseram uma revolução no futebol, a justificativa foi a seguinte: só a bola seria capaz de unir a nação.
Faz mais sentido do que parece. A Alemanha é o terceiro país com mais imigrantes no mundo (atrás de EUA e Rússia). Mais de 20% dos 82 milhões de habitantes da Alemanha são ou imigrantes ou filhos de imigrantes. Num país onde até não muito tempo atrás era preciso ser "ariano" para ser cidadão, isso poderia virar um caldeirão de intolerância. Às vezes até vira. Mas o futebol ajuda a manter a coisa em fogo baixo, justamente porque nada na Alemanha abraçou mais imigrantes do que o futebol.
O Bayern de Munique, por exemplo, é um arco-íris étnico. No time mais tradicional da Alemanha, tem negro, branco, moreno, narigudo, careca, black power... Se botar o uniforme do Bangu nos caras, vira tudo carioca. Uma combinação de fazer Hitler revirar no túmulo - e, junto com as iniciativas que vimos aqui, de tornar a Alemanha tetracampeã no Brasil, o país da corrupção no futebol.

domingo, 29 de junho de 2014

O jornalismo de hoje: entre o Mercado e o Povo

Compartilho abaixo o ótimo texto de Roberto Sávio (na foto) sobre a realidade do jornalismo atual. Publicado originalmente em Carta Maior



Por ter larga carreira na profissão, me pediram para dar minha opinião às novas gerações sobre o que é o jornalismo.

O fato é que em pouco mais de uma geração, o jornalismo viveu transformações profundas. Cabe lembrar que foi criado pelas elites. No apogeu da era colonial, o Times de Londres tinha uma circulação de apenas 50.000 cópias, todas para a elite e para os funcionários do Império Britânico.

O jornalismo se transformou em um meio de comunicação de “massa”, quando, no século XIX, os Estados Unidos de depararam com uma onda de imigrantes e tiveram de adequar seu jornalismo às necessidades de sua “panela de culturas”, em que milhões de pessoas de lugares muito diferentes tiveram de se adaptar ou assumir a identidade americana.

É assim que aparece o jornalismo moderno, com seu conjunto de técnicas devidamente estudadas nas escolas de jornalismo. Por exemplo: todas as notícias devem conter um “quem, onde, quando e como,” ou “se um cão morde um homem isso não é notícia, já, se um homem morde um cão, isto é”, e assim sucessivamente. No entanto, estas técnicas não ensinam como ser um jornalista melhor, mas indicam como empacotar a informação da maneira mais clara e atrativa para o leitor médio.


Desde a criação dos meios de comunicação, um elemento muito importante da profissão de jornalista era o da responsabilidade ante os leitores. Se supunha que o jornalista os ilustrasse, para que conhecessem seu tempo e seu mundo. Aos jornalistas foi pedido que proporcionassem este vínculo, da maneira mais equilibrada e mais justa possível, apresentando seus artigos com informações de diferentes pontos de vista e fontes. Os diretores dos meios de comunicação compartilham deste ponto de vista deontológico, mas dentro da ótica de seus interesses pessoais.

Os jornais foram capazes de sobreviver ao aparecimento do rádio e da televisão, e cada um desses três meios adotou um caminho especial. Mas depois de haver trabalhado nos três, estou convencido que o mundo da informação mudou depois de dois eventos sem relação alguma: o aparecimento da internet e a presidência de Ronald Reagan.

A internet marcou o começo de uma mudança de época: pela primeira vez na história, as pessoas podiam ter acesso à comunicação. A informação é uma estrutura vertical na qual apenas alguns poucos enviam fatos e pontos de vista a um grande número de destinatários, um processo de sentido único que os regimes autoritários ou ditatoriais foram rápidos em se apropriarem para que apoiassem suas relações verticais com os cidadãos. mas, pelo contrário, a comunicação é um processo horizontal, onde os que enviam também estão prontos para receber. É por isso que a China tem 30.000 censores em tempo integral para monitorar a rede.

Com a aparição da internet, os meios de comunicação foram repentinamente desafiados como guardiães da sociedade. Exemplo: a voz das mulheres. Na Primeira Conferência Mundial sobre a Mulher, organizada pela ONU em 1975, as vozes das mulheres na mídia eram escassas.

Na Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher, que ocorreu em 1995, em Pequim, a cobertura midiática foi igualmente patética se se exclui os quase 80% de cobertura jornalística que foi dada à Hillary Clinton (esposa do então presidente dos EUA). A cobertura não se referiu a temas reais das mulheres, mas sim ao que ocorreu durante a conferência. O que nos interessa é que na conferência de Pequim as mulheres tomaram o comando, utilizando a internet para criar uma plataforma comum, deixando os funcionários, na sua maioria homens, à margem. Sem dúvidas, as mulheres com consciência de gênero em todo o mundo não podiam depender dos meios de comunicação para divulgarem a informação que queriam. Graças à internet, repentinamente, se criaram milhares de redes que centravam-se nos temas reais das mulheres, questões que a mídia não era capaz de tratar em profundidade. O mesmo ocorre com os direitos humanos, o meio ambiente, a sociedade civil, etc., onde os meios de comunicação não podem competir.


O segundo segundo fato importante se registrou em 1981, com a chegada de Ronald Reagan à presidência dos EUA. Um homem que, habilmente auxiliado pela primeira ministra britância Margaret Thatcher, alterou quase sozinho o próprio conceito das relações internacionais, até então baseada na ideia da cooperação internacional. Reagan foi o primeiro político que deu respostas simples a perguntas complexas, que foram os “bytes” de suas convicções políticas. Desdenhou do movimento ecológico, ao declarar: “as árvores causam mais contaminação que os automóveis”. Reduziu os impostos para os ricos dizendo que “os ricos produzem riqueza, os pobres a utilizam”. Thatcher fez eco a tal declaração: “..não há sociedade. Há homens e mulheres, individualmente”.

Foi neste período que as Nações Unidas começaram seu declive e do da ideia de desenvolvimento e solidariedade internacional. O lema da época foi: “Comércio, não Ajuda”. O Consenso de Washington, que advoga pelo desmantelamento do estado de bem-estar social e a redução de todas as instâncias públicas, foi impulsionado em todo o mundo pelo Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Departamente do Tesouro dos EUA. Esta nova visão do mundo penetrou todas as instituições internacionais, especialmente a União Européia.

Logo, o Muro de Berlim foi derrubado em 1989. E a vitória não era simplesmente de um lado contra o outro, ou seja, do capitalismo contra o socialismo. Foi o “Fim da História”, como escreveu Francis Fukuyama em 1992. A globalização havia chegado, e todos conhecemos seus resultados. As 300 pessoas mais ricas do mundo tem a mesma riqueza que 3 bilhões de pessoas. E durante os últimos cinco anos, 75% de toda riqueza produzida tem ido aos 1% mais ricos. Os cem homens mais ricos do planeta aumentaram sua riqueza em 2012 até chegar ao equivalente dos orçamentos nacionais do Brasil e do Canadá.

Eu sustento que ambos fatores tiveram um impacto muito profundo nos meios de comunicação e em seu sistema de valores. A circulação dos jornais diminuiu, porque um número crescente de jovens não os compram e o rádio e a televisão são utilizados devido a seu valor recreativo. Eles recorrem à internet, onde podem adaptar sua informação e análise diárias de acordo com seus interesses. Em consequência, os meios de comunicação já não são um bom negócio e a reação tem sido concentrá-los com a finalidade de reduzir os custos. Rupert Murdoch é o maior exemplo deste fenômeno. A concentração se traduziu em uma redução da diversidade e do estilo. Desde que Murdoch se tornou chefe, o The Times de Londres “perdeu” 20% de seu vocabulário. A linguagem perdeu valor literário, usando orações mais curtas onde os adjetivos são “proibidos”. A cobertura mundial, que é complexa, vai perdendo espaço. Enquanto a homogeneização dos meios de comunicação era um fenômeno superestrutural, agora está chegando a um nível nacional.

Isto tem sido acompanhado por uma mudança séria da deontologia. Os meios de comunicação têm que vender para sobreviver. A informação tem sido cada vez mais orientada para eventos e não para processos. O sociólogo norueguês Johan Galtung escreveu na década de 1970 sobre uma “escala de valores da informação”: o que ocorre próximo a você vende mais do que o que acontece longe. Uma pessoa conhecida venderá melhor que um cidadão comum, algo dramático vende mais que uma análise econômica pouco atrativa. O negativo atrai mais que o positivo, e assim sucessivamente. Pois bem, agora isso tudo chegou ao extremo.

O primeiro jornal online, o Huffington Post, abriu suas páginas a todo mundo. Se paga segundo o número de cliques que um artigo recebe. O que pagará melhor, um artigo sobre as histórias de amor do presidente francês, François Hollande, ou um sobre suas políticas de emprego? Como resultado, as pessoas interessadas nos impactos das políticas de austeridade devastadoras na Europa, clicam no troikawatch e encontram o que a mídia não proporciona.

Falo por experiência própria. Cansado que meus amigos estejam menos informados que eu sobre temas globais, comecei um serviço de informação diária (Other News), com os critérios de uma agência de imprensa, mas usando a internet como fonte, e não jornalistas, com a finalidade de ser capaz de proporcionar um serviço gratuito. Dos meus 60 destinatários originais, agora o site cresceu para mais de 20.000 usuários em ingês e em espanhol: se você estiver interessado, clique aqui e veja o que você não encontrará no seu trabalho diário. Milhares de ativistas sociais, funcionários internacionais e acadêmicos enviaram mensagens de agradecimento por ter oferecido outro horizonte… o que um bispo chamou de “o outro lado da lua”.

O verdadeiro problema é que o jornalismo se converteu em apenas um espelho de nosso tempo, abdicando de qualquer função social, para limitar-se a ser um abastecedor de informações enquanto mercadorias. Nossos tempos estão marcados pelo neoliberalismo, e os vícios como a cobiça e o individualismo se converteram em virtudes, exaltadas por Hollywood e pela homogeneização dos meios de comunicação. Os valores do desenvolvimento, consagrados em todas as constituições modernas, eram a justiça social, a equidade, a solidariedade e a participação, entre outros. Mas para o contexto da globalização, tais valores são a riqueza e o êxito, o triunfo do indivíduo, com o Mercado ao invés do homem no centro. O desenvolvimento é um processo no final do qual você “é” mais - dentro da globalização é o que leva a “ter” mais.

Cabe acrescentar à esta mudança de valores o fato sem precedentes de que hoje gastamos mais em publicidade do que em educação; que as instituições políticas perderam a visão e a ideologia para se tornarem pragmáticas (de fato, utilitárias), com cada vez menos participação do povo; que o mundo das finanças se apoderou do mundo da produção de maneira global (um bilhão de dólares por dia em produção, 40 bilhões em transações financeiras); que agora temos apologistas de uma “nova economia”, que conceituam o desemprego estrutural como uma necessidade.

Em 1950, o financista estadunidense Bernard Baruch provocou um escândalo quando sustentou que o gerente de uma empresa pode ganhar um salário 50 vezes maior que seus trabalhadores. Hoje já passamos de 500 vezes e a brecha continua a crescer. A cada mês, os bancos são multados em dezenas de milhões de dólares por atividades fraudulentas, mas isto já não é mais notícia e o mesmo acontece com revelações da corrupção política e econômica. Basicamente, o povo se deu por vencido. Ou renunciou, ou se converteu a assistir tudo passivamente, ajudado pelo efeito anestésico de programas de televisão como o “Big Brother”.

Para salvar os bancos, gastamos o equivalente a mil dólares por habitante. Em 2012, só na Espanha, o salvamento dos bancos custou mais do que o orçamento anual em educação e saúde… enquanto isso, os estados são incapazes de proporcionar uma nutrição adequada para cerca de um bilhão de pessoas. A London School of Economics publicou um estudo no qual diz que no ano de 2030 se projeta um retorno aos tempos da rainha Victoria, quando um filósofo desconhecido chamado Karl Marx estava na biblioteca do Museu Britânico escrevendo seus ensaios sobre o capital, o trabalho e a exploração, elaborando seu manifesto.

Nos encontramos em uma etapa de transição entre um mundo que já não é viável — um mundo onde as finanças não têm nenhuma norma e o capitalismo é uma roda que caminha até sua destruição — a um mundo que deve encontrar a governança global. Somos incapazes de resolver um só problema global, desde o meio ambiente à fome, desde o desarmamento nuclear à imigração até os controles sobre o capital em paraísos fiscais (onde está depositado dez vezes o capital necessário para resolver a fome, a saúde e a educação em todo o mundo).

Tudo isto mostra como estamos falhando em assegurar um mundo melhor para as gerações que virão. É sabido que a ética protestante foi amplamente aclamada como mais estrita que a ética católica. No entanto, nos últimos anos, Wall Street se converteu no ninhos de cobiça e de fraudes sem precedentes. Hoje em dia, o Papa Francisco é a única voz em defesa dos pobres, advogando por justiça social, denunciando a desigualdade e incitando a paz e a cooperação. Mas, em que escola de negócios ou faculdade de economia se escutou falar da doutrina social cristã?

Para tanto, existe a necessidade de um novo jornalismo e não só de uma atualização do anterior. Está claro que não será um ofício associado ao glamour e à boa vida como o foi na geração passada. Inclusive os meios de comunicação de êxito que sobrevivem estão reduzindo custos (em outras palavras, demitindo). Os repórteres são pago por artigo, e não muito.

Para aqueles que aspiram ser jornalistas hoje em dia, a primeira lição é: deve querer ser jornalista porque crê que está fazendo algo útil, e que se está realizando quando o faz… do contrário, melhor trabalhar em um banco, onde há menos estresse e mais dinheiro e respeitabilidade. Mesmo assim, poucas profissões oferecem um impacto tão importante e necessário para a sociedade quanto o jornalismo.

A tarefa do jornalismo pós-Reagan (ou, para ser menos provocativo, do pós-ápice do neoliberalismo, que agora está perdendo o brilho) é corrigir a escala de valores e recolocar o homem no centro do mundo. Isto não deveria ocorrer como resultado dos ensinamentos do papa Francisco. Não se necessita da graça da fé para se dar conta de que este mundo é muito injusto e polarizado, onde a classe média está se reduzindo. Os novos jornalistas devem estar conscientes de que o status quo está mantendo uma situação insustentável para bilhões de pessoas, especialmente para as mulheres, as crianças e os jovens. Para tanto, ele/ela deve evitar três armadilhas que ajudam a manter o status quo.

A primeira é cair no mito da objetividade. Os filósofos e os cientistas lhe dirão que ela não existe. Aqueles que estão elaborando com êxito a globalização, lhe dirão: "seja objetivo, e para sê-lo, não deve escutar e escrever sobre as minorias descontentes. A única maneira de ver o país é através da macroeconomia, que divide a riqueza por habitante, e não a microeconomia, que analisa fatores complicados como o nível de renda, a redistribuição, a mobilidade social e assim sucessivamente. Em nome da objetividade, deve estar informado do que o sistema diz, sem se entorpecer pelas vozes das ruas. Os líderes políticos são eleitos, os da sociedade civil, não. Somente as estatísticas oficiais são confiáveis. Aquelas da Oxfam sobre a fome ou do Greenpeace sobre o meio ambiente não são objetivas. O mesmo ocorre com as conclusões do Grupo Intergovernamental de Experts para o Controle do Clima, que advoga pela tomada de decisões ambientai para salvar o planeta, que estão contra o crescimento econômico e nosso estilo de vida". Quando pedirem para que seja objetivo, abra seus ouvidos: estão pedindo que ajude o status quo.

A segunda armadilha consiste em crer que só aqueles que detêm o poder têm toda a informação e portanto estão mais capacitados para dar declarações. Eles têm toda informação, mas muitas vezes não leem, ou são omissos quando ela não se ajusta a seus pontos de vista. Nunca antes na história alguém teve tanta informação quanto o governo dos EUA, que com a NSA controla as comunicações em todo planeta. E isto significou uma melhora na política estadunidense?

A terceira armadilha é achar que você não é mais respeitável porque tem maior acesso ao poder estabelecido. Isso é somente uma forma de cooptação. É necessário dar voz aos sem poder, às pessoas reais, não aos ganhadores como em um mundo de cassinos.

E todos os números lhe apoiarão: a grande maioria não está junto do 1% superior que divide 54% de todos os recursos do mundo, mas sim entre os 75% que dividem apenas 15%. Esta é a realidade de nosso tempo e temos de dar voz aos 75% e a seus problemas para alcançarmos uma vida cotidiana digna. Quando observamos o mundo, devemos ser igualmente capazes de dar ênfase ao que pode significar a paz e a justiça internacionais, a tempo de expôr as consequências da guerra e da injustiça. Tudo isto deve se fazer com um critério profissional simples: dar voz a todas as partes, e informar o mais fielmente possível o que está acontecendo.

O problema é que um jornalista hoje em dia não pode permanecer sempre imparcial. Tomemos como exemplo a mudança climática. Não podemos colocar os interesses das companhias petrolíferas e os da raça humana no mesmo nível. Ao fazer isto, se perpetua um mito que é o resultado de uma visão peculiar do mundo, inclusive que não têm nenhuma base científica: que o mercado vai redistribuir a riqueza, como em um efeito dominó, até o último ser humano no mundo, eliminando as guerras e a pobreza. Sob este enfoque, pensa-se que, por exemplo, as companhias petrolíferas dão trabalho a dezenas de milhares de pessoas, e quanto mais dinheiro ganham, melhor será para todos nós, no mesmo tipo de lógica que levou a Corte Suprema dos EUA a dizer que as corporações têm o mesmo direito que as pessoas, e que portanto podem contribuir livremente e sem limitação nas campanhas políticas.

Hoje em dia os jornalistas têm uma ferramenta de valor inestimável que não contávamos em meu tempo: a possibilidade de buscar na Web, entrevistar pessoas sem a necessidade de viajar, inclusive com o uso programas como o Skype, se utilizando de uma câmera. Em meu tempo, os custos das comunicações e de viagens eram enormes, a norma era ter sempre um fotógrafo junto de si. Uma equipe de televisão era composta por ao menos 5 pessoas e 300 quilos de equipamentos. Hoje em dia, um jornalista com seu smartphone pode fazer tudo isso

Estamos vivendo em tempos diferentes, não melhor em muitos sentidos, mas com um grande avanço na tecnologia, o que permite a um jornalista uma liberdade para perambular em suas investigações. O problema, por tanto, vai ao que Leonardo da Vinci chamou de “saper vedere”: ser capaz de enxergar. O jornalismo, em suma, é a capacidade de ver e colocar o que se observou em uma orgem adequada para comunicar com seus leitores. O que faz a diferença não é a forma de escrever, mas a capacidade observar.

É evidente que estamos em uma época de transição em direção de um novo mundo difícil de prever. Antonio Gramsci, um pensador comunista italiano, escreveu em seus Cadernos do Cárcere: “O velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para nascer: chegou o momento dos monstros". Necessitamos de um novo jornalismo que nos conduzirá através deste ciclo, que identificará os monstros e levará as vozes da humanidade em um conjunto que faça a trilha até o novo mundo.

tradução de Roberto Brilhante

terça-feira, 10 de junho de 2014

A mídia gorda brasileira não mostrou

Não resisti e resolvi repercutir nesse meu pequeno espaço essa fantástica notícia que não foi divulgada em nossa mídia. 

Veja como parar um tanque tem a importância que a mídia dá ao “lado” de quem o para
21 de abril de 2014 | 18:39 Autor: Fernando Brito

Quem se lembra do chinês que parou um tanque se postando diante dele na Praça da Paz Celestial, em 1989?
A cena rodou o mundo, repetida à exaustão como ícone da resistência ao regime comunista chinês.
Ocorreu um episódio semelhante, dias atrás, na  região de Donetsk, na Ucrânia, uma das áreas que está rebelada contra o governo que se instalou em Kiev, mas  por “culpa” da mulher que o protagonizou, praticamente não é mostrado.
Se a mulher fosse pró-Kiev e o tanque russo, seria manchete. Mas como ela é pró-Russia e o tanque ucraniano é pró-Ocidente, só no Youtube…
A guerra na propaganda é terrível. Ontem, chegou a ser divulgado que os líderes do movimento pró-Russia estaria fazendo um “cadastramento” de judeus em Donetsk, o que foi  desmentido com muito menos ênfase do que foi noticiado.
Veja o vídeo:

Brasil Copa 2014

Campanha celebra jeito único dos brasileiros de viver e receber os visitantes