PenseLivre On Line

Como dizia apropriadamente Samuel Wainer: A PENA É LIVRE, MAS O PAPEL TEM DONO.
Os blogs permitem que, por algum momento, possamos ter a pena livre e, ao mesmo tempo, ter a propriedade do papel.
Neste blog torno públicas algumas reflexões pessoais, textos e publicações pinçadas da web e que me fizeram pensar e repensar melhor a realidade.
Este blog é uma pretenção cidadã e...nada mais!

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Liberdade de imprensa e Wikileaks

A matéria que transcrevo a seguir reflete o que venho pensando sobre o Wikileaks. Nossos jornalões ainda estão tontos com a criatura de Assange e estão com enorme dificuldade para esconder suas intimidades que ficaram completamente expostas. Na verdade a mulher estuprada por Julian Assange chama-se Mídia Gorda. Faço minha a pergunta do autor: cadê os editoriais evocando a liberdade de imprensa focados no jornalismo científico de Julian Assange?
Li isto em Observatório da Imprensa que recomendo a todos.

WIKILEAKS
A construção do mito Assange
Por Washington Araújo em 14/12/2010

Digam o que disserem, esperneiem como quiserem, tomem as medidas mais tradicionais e também as mais estapafúrdias possíveis para amordaçá-lo, retenham seus movimentos, a verdade é que se existe alguém, nos dias que correm, melhor antenado com a ideia de cidadania para além das fronteiras puramente nacionais, esse alguém é um australiano com seus incompletos 40 anos de idade.

Não me precipito ao afirmar que estamos vendo a construção de um mito. É corrente que mitos são importantes porque representam uma imagem de sucesso e glória que todo mundo almeja, mas é também evidente que a aura do mito transcende sua obra. Mitos não são criados por serem explicáveis, são idolatrados. Mitos tendem sempre a valorizar determinada característica humana vista sob enfoque bastante positivo. É a passagem do tempo que confere ao mito a percepção de alguém ou de algo que ultrapassa seu valor real, intrínseco e passa a referir todo o conjunto de virtudes humanas.

Os elementos constitutivos para a criação de um mito podem ser ruins ou bons para a verdade. Mas a verdade é sempre factual quando se trata de esquadrinhar a pessoa humana e, no fundo, quem torna mito alguém é a trajetória percorrida por esse alguém. A trajetória do homem-que-se-torna-mito tem relação quase sempre direta de escolhas e estratégias adotadas durante o caminho de mitificação, seja na falsificação ou na comprovação de sua excelência.

Julian Assange parte da premissa que sua criatura – o WikiLeaks – "publica sem medo fatos que precisam ser tornados públicos". Notem que a atividade principal de sua criatura é publicar e sua principal característica abarca um sentido de urgência e de necessidade: "Fatos que precisam ser tornados públicos". Não esqueçamos do destemor, da ousadia e do passo à frente simbolizado pelas palavras "sem medo". É aqui que começa a atividade maior de Julian Assange: ele sabe o que quer fazer, o que sente que deve ser feito e está consciente dos riscos envolvidos. E porque se sente investido de lutar por algo em que acredita, alcança com inédita velocidade essa aura de benfeitor, de quem consegue reanimar antigas utopias humanas, como essa da busca da verdade, verdade que deve ser alcançada a qualquer custo. Mesmo que sempre... no limite.

Liberdade de expressão

Para nossa grande imprensa, que tem elegido a defesa da liberdade de expressão com aquele ardor digno dos seguidores de Antonio Conselheiro no episódio de Canudos, soa patético que não conheçamos nenhum editorial inflamado em defesa de Assange e contra sua prisão, aparentemente causada por suas peripécias sexuais na Suécia e que incluem até uma obscura história de estupro. Qualquer biscoito (cookie, em inglês), além de qualquer cidadão norte-americano medianamente informado e mesmo qualquer dona de casa alemã que assine Der Spiegel, sabe muito bem que sua prisão tem tudo a ver com os transtornos que o WikiLeaks vem causando à imagem e às relações de Washington com governos do resto do mundo.

Não se exigirá mestrado ou doutorado em Comunicação, conferido por Cambridge ou por Harvard, para que não tarde a que a história da diplomacia no século 21 venha a ser ensinada em dois períodos de tempo distintos: antes e depois dos wikileaks.

Julian Assange assume que "qualquer governo corre o risco de ser corrompido caso não seja vigiado cuidadosamente". Até aqui, nada demais, porque data de muito longe o ditado de que "o poder corrompe". E o que exerce o poder em uma sociedade? Primeiramente, o governo. Uma coisa é inferir sabedoria popular, geralmente fundada na experiência dos antigos. Mas agora a coisa é bem diferente. A novidade é que esse axioma acaba de ser comprovado cientificamente em um trabalho de pesquisadores da renomada Kellogg School of Management, nos Estados Unidos. Foi após uma série de testes comportamentais com voluntários que ficou evidenciada a forma como o poder costuma, em geral, mudar as pessoas para pior.

Em testes, os poderosos não só trapaceavam mais, não só usavam os mais sórdidos golpes, aqueles bem abaixo da linha da cintura, como também se mostravam mais hipócritas ao se desculpar por atitudes que condenavam nos outros. Neste contexto, vale conferir a afirmação do psicólogo social Adam Galinsky, professor de Ética e Decisões em Gerência da Kellogg School of Management e um dos autores do estudo, quando diz que "os poderosos acreditam que devem ser excluídos de certas regras".

A propósito, é isso o que precisamente vem acontecendo se considerarmos as reações de Washington aos wikileaks. Quem não lembra que há apenas um ano, em resposta a ações do governo da China contra o Google, a secretária de Estado americana Hillary Clinton fez apaixonado discurso em defesa da liberdade de expressão na internet? A senhora Clinton não parou por aí. Foi além: "Mesmo em países autoritários, governados por ditadores, redes de informação têm ajudado pessoas a descobrir novos fatos e feito governos mais transparentes". Seria patético, não fosse apenas ridículo, o uso contumaz de dois pesos e duas medidas quando autoridade política trata de atacar governo estrangeiro que é acometido por sua própria enfermidade.

Documentos secretos

Julian Assange se expressa com clareza quando o assunto é a sua entidade WikiLeaks. Sabendo que tem gente que acredita ser ele um pacifista nato, totalmente avesso às guerras, ele trata logo de desfazer o "piedoso engano":

"As pessoas afirmaram que sou antiguerra: que fique registrado, eu não sou. Algumas vezes, nações precisam ir à guerra e simplesmente há guerras. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir à sua população sobre estas guerras e então pedir a estes mesmos cidadãos que coloquem suas vidas e o dinheiro de seus impostos a serviço dessas mentiras. Se uma guerra é justificável, então diga a verdade e a população dirá se deve apoiá-la ou não."

Há um quê de quixotesco no pensamento e na ação de Assange quando vemos quão distante ele se encontra da realpolitik. Não será a política o campo para a dissimulação, para vestir de significado novo velhas ações, para utilizar todos os meios ao alcance com o intuito de conquistar esta ou aquela vitória política? Não foi o Departamento de Estado dos EUA que buscou negociar com o primeiro-ministro da Eslovênia um encontro com o presidente Barack Obama desde que a Eslovênia aceitasse, em troca, receber um preso de Guantánamo?

Por extensão, seria equivocado inferir que o mundo da política internacional é o vale-tudo cotidiano entre os que tudo podem e os que pouco podem? E, por acaso, já não intuíamos isso? Claro! O que o WikiLeaks faz é retirar das relações diplomáticas mantidas pelos EUA com outros países o benefício da dúvida. E, em caso de dúvida, se existe uma arena em que a ultrapassagem é quase sempre certa é a da política internacional.

O que existia de fato para justificar a guerra no Iraque? Dúvidas. Apenas dúvidas sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque governado por Saddam Hussein. Devo registrar que não é de hoje que o WikiLeaks divulga documentos secretos. Isso é feito há anos. Mas só ganhou destaque internacional em 2010, com três vazamentos: (1) publicou um vídeo confidencial, feito por um helicóptero americano, que parece mostrar um ataque contra dois funcionários da agência de notícias Reuters e outros civis; (2) tornou públicos 77 mil arquivos de inteligência dos EUA sobre a guerra do Afeganistão; e, (3) divulgou mais 400 mil arquivos expondo ataques, detenções e interrogatórios no Iraque.

"O melhor dos desinfetantes"

Se o jornalismo tradicional – aquele que é impresso em jornais e revistas, que é ouvido nas rádios e assistido nos telejornais – constrói sua versão da realidade tendo como ponto de partida apenas uma ou duas peças do quebra-cabeça, e sobre estas cobre o restante da imagem com a opinião de seus colunistas e comentaristas, quase sempre de política ou de economia, o WikiLeaks arroga para si o mérito de realizar jornalismo científico, aquele que opera com outros suportes de mídia para trazer as notícias para as pessoas, "mas também para provar que essas notícias são verdadeiras". E como faz isso? Com a palavra Julian Assange:

"O jornalismo científico permite que você leia as notícias, e então clique num link para ver o documento original no qual a notícia foi baseada. Desta maneira você mesmo pode julgar: esta notícia é verdadeira? Os jornalistas a reportaram de maneira precisa?"

Infelizmente, o governo norte-americano, diante do escrutínio público de menos de 5% do material que ainda deve ser revelado, ao invés de fazer uma inadiável releitura de sua política internacional, de seus pressupostos e de suas atividades bastante heterodoxas, estará, neste momento, planejando novas estratégias, esquemas e modus procedendis para cobrir de sigilo (e suspeição) o que sempre fez: tudo é permissível para alcançar seus fins políticos, econômicos e financeiros – e isto inclui o direito de não precisar prestar contas a ninguém. O WikiLeaks ajudou a rasgar as duas pontas da capa que lhe encobria as vergonhas e reduziu a pó sua autoafirmação de que seu governo constituía a única e inatacável fonte da autoridade moral do planeta. Não mais.

A sociedade, os governos e a imprensa serão melhores com Julian Assange?

Acredito que sim. E por várias razões, dentre as quais destaco que seu WikiLeaks entrega um espelho a cada diplomata para que possa aferir o grau de sinceridade e também de hipocrisia de suas ações. O WikiLeaks abre imensa clareira no cipoal de boas intenções que costumam vicejar nas relações entre governos e apenas camuflam os objetivos reais da diplomacia de uma nação sobre outra, e fica mais evidente quando joga pesados fachos de luz sobre a nação que se apresenta como a mais rica do planeta, a mais equipada militarmente, a mais influente politicamente. E a imprensa passa a ter a oportunidade raríssima de tirar a prova dos noves sobre seu alinhamento automático a qualquer governo, bem como sobre sua postura ácida e crítica às ações de qualquer governo.

Há quase um século, o juiz americano Louis Brandeis disse que "a luz do sol é o melhor dos desinfetantes". Se vivo fosse, talvez dissesse o mesmo com outro enunciado: "O trabalho do WikiLeaks é o melhor dos desinfetantes."

domingo, 28 de novembro de 2010

Guerra do Rio, por Latuff


A charge do Latuff é de um simbolismo ímpar. Como será o lado do TRÁFICO que o Brasil não vê na TV? Será que o veremos um dia?

sábado, 27 de novembro de 2010

Luiz Eduardo Soares: A crise no Rio e o pastiche midiático

Em questões de Segurança Pública gosto muito de saber o que Luiz Eduardo Soars tem a dizer. Gostei do que foi dito por ele sobre o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Veja na fonte clicando no link abaixo.

Luiz Eduardo Soares: A crise no Rio e o pastiche midiático: "Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando a..."

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

EUA preparam lei draconiana para censurar a internet no mundo inteiro

Lí a matéria abaixo no Blog Barão de Itararé. Veja na fonte.
A mídia gorda ocidental chama isso de censura, se for na China, Cuba e etc. O governo americano e a CIA podem?

EUA preparam lei draconiana para censurar a internet no mundo inteiro

Um projeto de lei em tramitação no Congresso americano pode pôr a internet sob total controle dos interesses dos Estados Unidos. Se aprovada, a lei — batizada como Combating Online Infringement and Counterfeits Act — daria poder à Casa Branca de mandar bloquear qualquer site ou domínio que hospede conteúdo violando direitos autorais.

As ameaças à privacidade na rede mundial não param por aí. Segundo o jornal The New York Times, diretores do FBI, a polícia federal americana, já se reuniram com executivos da Google e do Facebook, entre outras empresas, para discutir uma proposta que torne mais fácil grampear internautas.

Os agentes querem reforçar uma lei de 1994 chamada Communications Assistance for Law Enforcement Act, para enquadrar mais as empresas do mundo on-line. Segundo essa lei, as operadoras de telecomunicações e os provedores de internet e banda larga devem estar sempre dispostas a cumprir ordens judiciais que exijam escutas telefônicas, e o FBI quer estendê-las também a gigantes como Google e Facebook, já que as pessoas cada vez mais usam suas ferramentas para se comunicar on-line.

Para o advogado especializado em direitos autorais na era digital Renato Opice Blum, essa movimentação ilustra muito bem a difícil tarefa dos governos de legislar em cima da rapidez da tecnologia. “O legislador precisa buscar o equilíbrio. Há sites que contêm coisas ilegais, mas também apresentam conteúdo legal”, diz Blum. “O YouTube, por exemplo. Pode apresentar conteúdo que viole copyright, mas também tem muitos vídeos legítimos. Por isso, é preciso que a lei dose seu veneno, ou sua vacina.”

De acordo com o advogado brasileiro, a lei brasileira prevê o fechamento e responsabilização civil e criminal de sites pela chamada "infração por contribuição". Mas, explica Blum, “é preciso separar o que é legal e ideal na mesma plataforma. É preciso ter um meio-termo, que no Brasil é a ação inibitória, a qual permite retirar de um site o conteúdo que viole direitos, mas não fechar o site em si.”

Nos Estados Unidos, entidades defensoras da liberdade de expressão já iniciaram os protestos contra o projeto de lei, apresentado pelo senador democrata Patrick Leahy, do estado de Vermont. A Electronic Frontier Foundation (EFF), por exemplo, chegou a compilar uma lista de sites que terão de sair da rede se o projeto for aprovado. É o caso de páginas como o Rapidshare ou o Mediafire, que permitem uploads dos próprios usuários, ou blogs de MP3 e sites de remixes musicais.

Para a EFF, hoje, apesar da repressão, ainda há um equilíbrio entre "as punições devido ao copyright violado e à liberdade dos sites de inovar". Com a nova lei (sem falar na iniciativa do FBI), os grupos de defesa das liberdades civis on-line acreditam que será instaurada de vez uma censura prévia na rede.

Na opinião de Brian Contos, diretor de Estratégia de Segurança Global e Gestão de Risco da McAfee, o projeto americano de fato gera preocupações em relação à censura. “-Há sempre uma preocupação com o que é censurado agora e o que será censurado depois. Pense nos filmes. Censura-se uma cópia pirata hoje, daqui a pouco um blog com posts negativos sobre filmes amanhã e no dia depois de amanhã pode ser um site de um estúdio concorrente produzindo um filme parecido”, diz Brian.

Ele acredita que qualquer lei sobre esse assunto só dará certo se houver discussões bem mais detalhadas envolvendo todos os setores. “Me parece que há algo podre aí, e é preciso debater se realmente isso deveria ser feito e, em caso positivo, como deveria ser feito.”

O professor de Direito David Post, da Universidade de Temple, também atacou duramente a medida. "Se virar lei, o projeto alterará fundamentalmente a política americana sobre a expressão na internet e criará um perigoso precedente com sérias consequências em potencial para a liberdade de expressão e a liberdade da internet global”, diz. Segundo ele, o projeto de Leahy prevê a ação do governo contra os domínios — "mesmo que tal nome de domínio não esteja localizado nos Estados Unidos".

(Com agências)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Niedja Amorim, mãe social

Niedja é minha irmã. Já tive algumas oportunidades de conviver alguns dias com ela e seus "filhos". Impressiona a harmonia do grupo e a forma como ela consegue trabalhar os conflitos próprios da idade desses jovens com quem ela convive desde a infância. A música e o Bolshoi é o habitat natural onde desabrocham esses talentos ressgatados da base da pirâmide social. Parabéns, mana, você já entrou para a história.

Transcrevo o texto publicado na FOLHA.com.

Dez adolescentes moram com mãe social para estudar balé

IURI DE CASTRO TÔRRES

DO ENVIADO A JOINVILLE (SC)

Niedja Amorim de Andrade tem três filhos biológicos e dez "adotados".
Ela é a mãe social de uma dezena de adolescentes de João Pessoa que
estudam no Bolshoi.

A jornada maternal da advogada e assistente social começou em 2003,
quando a ela foi incumbida a tarefa de cuidar das dez crianças que foram
aprovadas no balé, que são patrocinadas pela prefeitura de João Pessoa.

Desde o começo, ela é responsável por zelar por eles. "Desempenho o papel de mãe nos aspectos físicos e emocionais", diz.

E como é morar numa casa com dez adolescentes? "É uma confusão", admite.

"Mas também é muita alegria poder compartilhar com eles momentos
importantes, como os meninos fazendo a barba pela primeira vez."


Os jovens de João Pessoa com sua mãe social, Niedja


Os jovens, no entanto, parecem gostar. Anielle Rolim, 17, diz que ganhou
nove irmãos. Para Iure Dias, 17, a intimidade é tão grande que nem rola
paquera. "Você vê as meninas acordando descabeladas", brinca.

"É uma oportunidade única para eles", avalia Niedja. "Muitos vieram de

famílias de risco social e o balé é uma porta para o futuro."

"Algumas coisas só conto para minha mãe social", assume Anielle. "Vai

ser muito difícil dar tchau para eles quando isso terminar", diz,
emocionada, Niedja.


domingo, 17 de outubro de 2010

Após fala de frade em missa, visita de tucano acaba em tumulto no Ceará

Terminou em tumulto a visita do candidato do PSDB, José Serra, a uma missa ontem na festa de São Francisco, o maior evento religioso de Canindé.

A notícia é de Fábio Guibu e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 17-10-2010.

No final da missa, houve corre-corre envolvendo militantes com bandeiras do PT e de Serra, que chegou a ser empurrado, mas não se feriu.

O frade que celebrou missa - o nome dele não foi informado - reclamou da chegada de Serra quando a cerimônia já estava em andamento e declarou que a igreja não autoriza a divulgação de panfletos associando a petista Dilma Rousseff à defesa do aborto.

"Se vieram com outra intenção [que não assistir à missa], peço que saiam assim como entraram", disse. No final, exibiu um panfleto que, segundo ele, atacava Dilma. "Acusam a candidata do PT em nome da igreja. Não é verdade", disse.

Serra não quis comentar as declarações.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Arnaldo Jabor - Truão imperfeito

Nas poucas vezes em que escutei comentários de Arnaldo Jabor na CBN não pude evitar a impressão de estar diante de um pitbull raivoso. Não é à toa que a própria emissora, ao apresentar o comentarista, se exime de qualquer responsabilidade com o conteúdo que será vomitado. Sim, é a sensação de vômito que desperta. Tanto que nem me disponho mais a escutá-lo. Faz mal.
A leitura do texto a seguir colocou as coisas no devido lugar. TRUÃO é a definição exata do Arnaldo Jabor.
Se quizer beber na fonte clique em
Carta Aberta a Arnando Jabor

CARTA ABERTA A ARNALDO JABOR - de Mauro Carrara

Quase perfeitíssimo truão,

Primeiramente, atente ao substantivo,
e não desconfie de insulto. Os bobos da corte são, historicamente, mais
que promotores de fuzarca ou desvalidos a serviço do entretenimento. Os
realmente talentosos urdiam na teia das anedotas a crítica a seus
senhores monarcas, traduzindo pela ironia a bronca popular.

Era o caso do ácido e desengonçado Triboulet, vosso patrono, uma espécie de grilo falante capaz de estimular as consciências de Luís XII e Francisco I. Tantos outros venceram no ofício, como o impagável Cristobal de Pernia, uma espécie de conselheiro extra-oficial de Felipe IV.

Neste Brasil da pós-modernidade globalizante, el rei Dom Fernando Henrique
Cardoso reviveu a bufonaria. No entanto, empregou-a de modo diverso,
quase sempre como dissimulação hilariante para desviar atenções de sua
ética de conveniência mercantil, tão bem definida por Dom José A. Gianotti, seu filósofo e encanador.

O ex-monarca utilizou ainda sua trupe de falastrões para promover a alienante festa pública sugerida por Maquiavel. Portanto, nunca é exagero te parabenizar pelo empenho
profissional. Há anos, na ribalta televisiva, te devotas a divertir e iludir os "psites do sofá", mesmo depois que o tiranete a quem servias foi apeado do trono. Sempre diligente, conclamas e incitas, rebolando patranhas tal qual histriônico cabo de esquadra do restauracionismo.

Recentemente, contudo, causou-me espanto tua fúria salivante para edulcorar a
participação do embusteiro Geraldo Alckmin no embate contra o grisalho herói de todos os sertões.

Como é próprio de teu ofício, fizeste rir ao embaralhar significados, ao abusar das hipérboles, ao exceder-se nos adjetivos impróprios, ao viajar na maionese das idéias desconexas.

No entanto, truão Jabor, prosperou aqui a dúvida. Que quiseste dizer com o clichê "choque de capitalismo"? Seria referência ao rombo de R$ 1,2 bilhão legado pelo embusteiro alquimista ao ressabiado governador Lembo? Ou seria apenas ironia herdada de teus predecessores, na profecia zombeteira de um novo "que comam brioches"?

Destacam-se também, como enigmas, tuas dupletas acres de escassa teoria. São os casos de
"socialismo degradado", "populismo estatista" e "getulismo tardio".
Eita, nóis! Que essas vigarices binárias nos viessem, ao menos, com sal de fruta. Né? Ora, de qual "socialismo" tratas? Será que resolveste, no supletivo dos sexagenários, estudar a industria cultural e as idéias de Adorno? Hum... Pouco provável.

No que tange ao termo "populismo", arrisco uma resposta. Tu o compraste na escribaria de
ordenança dos novos donatários. É coisa do bazar de tolices de Civita e Frias Filho. Acertei? Diga aí...

Mas o que queres dizer com "getulismo"? Pelo que percebi, escapa-te o fenômeno à compreensão
histórica. Tratas daquele do Departamento de Imprensa e Propaganda? Ou te referes àquele das necessárias justiças trabalhistas?

Outros exageros me encafifaram em tua anedota de encomenda. Tratas lisergicamente de um São Paulo "rico", como se construído dos empenhos da malta quatrocentona. Em teus seminários de apedeuta, desapareceu o povo. Evaporaram-se João Ramalho, Bartira, Tibiriçá, Anchieta, tantos mamelucos arabizados, tantos avós europeus aqui remixados, tantos irmãos
nordestinos que ergueram nossos arranha-céus. Teu São Paulo mítico, tristemente, não admite a antropofagia.

E tem mais... Em tua pregação, o embusteiro Alckmin surge como legítimo herdeiro da alva
elite construtora do progresso. Nesse delírio pós-positivista e lombrosiano, não há rastro da gestão criminosa dos privateiros tucanos, dos sonegadores dasluzeiros, dos pedageiros corruptos e dos sócios do marcolismo. Não te rendeste ao excesso? Ai, ai, ai...

Agitando guizos, executas tua prestidigitação. Empregas, em simultâneo, o sapato pontudo para alojar sob o tapete o sacrifício juvenil na Febem, as nove centenas de contratos irregulares e o estupendo assalto ao tesouro da gente bandeirante. Não exageraste? És bufão ou advogado, truão Jabor?

Entre tuas deformações, tão valiosas ao ofício, suponho até mesmo a cegueira
de um olho. Ignoras o júbilo de milhões de vassalos não mais famintos,
agora metidos a escrever o próprio nome. Vê, quanto atrevimento!
Tampouco registras a voz de ameríndios e afro-descendentes, agora
perigosamente mais próximos de ti, a tomar lugar nos bancos da
universidades. Não enxergas a energia elétrica nos grotões nem o canto
de esperança dos humildes da terra, fortalecidos em cooperativas de
produção.

Depois, qual demiurgo de botequim, dizes que o
nasolongo Alckmin é "incisivo", enquanto o outro te parece "evasivo".
Ladino que és, julgas os combatentes pelo aspecto cênico e não pela
natureza das idéias. No caso do embusteiro alquimista, excedes ao
elogiar o espantalho bélico, aplicadíssimo ao método stanislavskiano.
Ora, magnífico truão, todos vimos que o herói de todos os sertões é
adepto de outra técnica. Pisa o palco de Brecht, revelando-se como
realmente é, antes que se mistifique no papel de fundeiro de microfone.

Cantaste,
portanto, a vitória do "limpinho", do "sem barba", do malcriado que
imita Tyson. Como líder de torcida, vibraste na platéia, tuas pernas
flácidas saltitando de contentamento, as mãos agitando invisíveis fitas
coloridas. Ah, mas perdeste a razão...

Depois, destilaste teu
parvo sarcasmo sobre o "povo", sobre a "mãe analfabeta" do operário e
sobre os "pobres", em suma, sobre esses todos do "lado de cá". Na piada
rancorosa, revelaste um desprezo moldado para a auto-proteção.

Sabes o quanto é doloroso viver deste lado da linha, no território dos anônimos, dos que sofrem e trabalham de verdade.

Se
há dialética nesta missiva, agrego teus motivos. Sabes o valor de uma
adoção real, ainda que precises caminhar de quatro, atado à coleirinha
de el rei. Sabes o quanto é estratégica essa assepsia, esse descontato
com o ímpio das ruas, dos campos e das construções.

Assim, me
permito uma visita a teu passado. Tua obra "séria" resultou, caro truão,
em enorme fracasso. E, disso, bem sabes. Por um tempo, tuas ventosas de
sanguessuga agarraram algumas tetas públicas. Desse modo, pudeste
alimentar teus espetáculos de terceira categoria, ainda que fizessem rir
quando a intenção era pretensiosamente induzir à reflexão.

Incerto
dia, pobre de ti, todo o oportunismo de parasita foi castigado, de modo
que te encontraste novamente vadio, mergulhado na mais profunda
frustração. Naquele momento, julgo, buscaste inspiração em Triboulet...

Na
Vênus Platinada do decrépito Marinho, iniciaste tua pândega
panfletária, calcada na manipulação marota de cacos de idéias. Nada por
inteiro. Coerente para quem, por natureza, carece de integridade.

Esse
flashback permite, portanto, compreender melhor o roteiro cínico. Tanto
faz se teu senhor largou o reino às escuras, se destacou piratas para
pilhar o patrimônio público, se foi incompetente até mesmo para
empreender no capitalismo que tanto celebras. Às tuas costas, no tempo,
estende-se a terra arrasada pela peste do egoísmo, habitada de fariseus
neoliberais e de peruas ridículas e mesquinhas. Por meio da ruidosa
retórica de falso indignado, desvias o olhar público dessa paisagem da
tragédia.

Para seguir o ato farsesco, fazes descer o pano da
falácia sinistra do golpismo lacerdista, da distorção, da maledicência e
da espetacularização do rito inquisitório. Simulas ver aqui, em alto
grau, o que ignoras ali. Na telinha da "Grobo", distribui sofismas,
injetas no sangue de Otello a desconfiança, patrocinas a intriga
nacional.

Poder-se-ia encontrar em ti o personagem Sacripante.
Uma observação acurada, entretanto, revela mais um Silvério dos Reis das
artes cênicas. Certa vez, me disse Henfil: "o pior humorista é o que
vende sua comédia aos canalhas que fazem o povo chorar". Simples,
didático, serve à elaboração de um código de ética de tua categoria.

Pois,
tua notícia deturpada do embate, devotado truão, mostrou-se cômico
engodo. Foi lá, teu embusteiro "truco-lento" dar com as fuças na parede.
Saiu do campo laureado e enganado, pior que Pirro. Este, menos imbecil,
admitiu que a vitória contra os romanos fora uma tragédia, o prólogo de
sua ruína.

Portanto, o exemplo da derrota também te serve.
Decisivamente, ainda que te gabes, jamais superaste Paulo Francis, o
bobo da corte mais destro nessas artes de sabujo-rabujo. E se cultivas
alguma pretensão de hegemonia, te sugiro mover o pescocinho atrofiado.
Pilantrinhas peraltas, como Mainardi e Azevedo, emparelham já contigo,
disputam hidrofobicamente a suprema magistratura da bufonaria.

E,
percebe truão, que a dupla tonto-fascista não te fica a dever: são
também inescrupulosos, traiçoeiros e carregam a poderosa energia do
ressentimento, sem contar que igualmente migraram do fracasso
profissional para a aventura mercenária midiática.

Por fim,
adorável truão, ajusta o relógio da tua soberba. Não é hora de celebrar a
ignomínia convertida em comédia. Nem é momento de levantar a horda de
rufiões da "ética" para cantar a vitória restauracionista. Para além dos
simulacros do teu moralismo cínico, lambuzado de paroxismos impróprios,
exercita-se o sabre do julgamento público, implacável, aquele cuja
lâmina é afiada pelo tempo. Subiram os letreiros... Perdeste o charme.
Perdeste a graça.

Nota de Boca de Mídia sobre o autor:

Mauro Carrara é jornalista, nascido em 1939, no Brás, em São Paulo. É o
segundo filho de Giuseppe Carrara, professor de Filosofia em Bologna, e
de Grazia Benedetti, uma operária e militante comunista de Nápoli. O
casal chegou ao Brasil em 1934, fugindo da perseguição fascista. Mauro
foi para a Itália em 1959, por sugestão do amigo dramaturgo G.
Guarnieri. Em Firenze, estudou arte, ciências sociais e comunicação. De
volta ao Brasil, passou dois anos na Amazônia. Ao atuar na defesa dos
povos indígenas, foi preso pelo regime militar. Libertado, voltou à
Itália. Como free-lancer, produziu reportagens para jornais como L’Unita
e Il Manifesto. Com o primo Antonino, esteve no Vietnã, no início da
década de 70. Em 1973, no Chile, juntou-se à resistência ao golpe contra
Allende. No Brasil, como clandestino, aproximou-se do cartunista
Henfil, cujos trabalhos traduziu para uma revista alternativa italiana.
Na década de 80, prestou serviços para a ONU em países como China,
Iraque e Marrocos. Nos anos 90, assessorou ONGs brasileiras,
especialmente na área de Direitos Humanos. Ainda atua na área de
comunicação e relações internacionais.